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domingo, 29 de dezembro de 2013

A propósito da "crise" ... Malala Yousufzai

"Uma criança, um professor, um lápis, uma caneta: podem mudar o mundo."
Dito pela jovem paquistanesa de 16 anos, no seu discurso nas Nações Unidas.

Para nós, portugueses e europeus, parece básico, banal, e, inconscientemente, paramos em apenas um minuto de consternação, movidos pela imagem da menina baleada a caminho da escola. Felizmente ultrapassámos essa fase de civilização em que a ida à escola por rapazes e raparigas faz parte do nosso crescimento. É simplesmente tão normal que deixámos de valorizar. Esquecemo-nos da nobreza desse direito, em linha com o da liberdade de expressão e de igualdade de sexos. Assim crescemos, assim vivemos, sem dar conta. Embriagados de múltiplos outros direitos, num processo iterativo contínuo e exaustivo, sem parar, até que alguém nos empregue, alguém nos trate, alguém e sempre alguém cuide de nós.

Parece tudo simples, imediato.Vivemos em crise de muitas coisas e raramente ouço falar da crise mais profunda que sinto vivermos: a falta de educação.
Desde a falta de educação como cidadão até à falta de educação como pessoa social e passando pela falta de educação escolar ou instrução.
Educação civil: sabermos que fazemos parte de uma comunidade e que devemos manifestar esse compromisso, sempre. Desde o comportamento num espaço publico até à participação em actividades sociais comunitárias.
Educação como pessoa: termos o exemplo de trabalho, coragem e dignidade dos nossos familiares mais próximos. Termos o exemplo na nossa organização social e empresarial em como não é por termos aliados políticos ou por fazermos parte de alguma seita ou grupo de interesses que teremos sucesso profissional.
Educação escolar: o conhecimento com gosto, o exemplo dos professores como se de "missionários" se tratassem. Com satisfação, com dedicação, com intenso e profundo respeito pelo conhecimento.

Vivemos esta enorme e profunda crise de educação a todos os níveis.
Muitas crianças sentem a instrução como obrigação, não se sabem comportar socialmente, crescem com a ilusão de facilidade em tudo, até na sua vida de adulto. Desaprendem a lidar com percalços, com a palavra "não".

A frase de Malala não é assim tão simples. É antes, um renascimento de valores para os senhores da civilização "ocidental" a que pertencemos. É uma novidade que quase desaprendemos.

Na nossa Europa, destratamos a educação. E é aqui que se inicia uma desarticulação entre pessoas, famílias, empresas, governos. Enfrentar a educação como a área fundamental de investimento assegura, a prazo, a sustentabilidade e a harmonia social, e a ferramenta-base para o crescimento económico.
A estafada noção de "empreendedorismo" seria facilmente entendida se tivéssemos dado mais atenção à instrução escolar, à forma como acedemos á vida profissional, ao que é valorizado nas empresas, e ao tempo que dedicamos à vida comunitária.

Malala merece uma enorme pausa, quase uma oração. E uma reflexão profunda de todos: escolas, associações de pais, dirigentes políticos a todos os níveis. Educação como área essencial de investimento.  Alteração de critérios de produtividade nas empresas. Sociedade com mais tempo para a família e para a vida comunitária nas áreas em que cada um se sinta mais vocacionado.
Sinto que, afinal de contas, estamos num tempo de civilização anterior ao país de Malala: a falta de noção das coisas, o desperdício como forma de vida.
Temos o essencial por reaprender, na nossa Europa.




domingo, 3 de novembro de 2013

Greves?!

Sim, é isso mesmo. Um ponto de interrogação e de exclamação, em simultâneo.
Não reconheço às greves previstas qualquer impacto positivo: resultados ainda mais negativos das empresas públicas e imenso transtorno nas deslocações de quem quer estudar e trabalhar, sem alternativa de escolha.
Os senhores dirigentes dos sindicatos de transportes não apresentam soluções, num país que perdeu a sua soberania de gestão.
E então, se estas greves só têm impacto financeiro e económico negativo...para quê? Talvez a troco do "glamour" e cobertura dos "media", a troco de protagonismo pelos discursos inflamados porque certos da sua plena audiência. A troco de poder por uns dias. E...a prazo...a troco de nada.

Bem sei que foi uma introdução desabrida a um tema complexo, eu sei...mas, recapitulando, mais devagar:
- o sector privado não faz greves; não porque não possa, mas simplesmente porque a manutenção de resultados negativos na empresa significa desemprego;
- em contrapartida, o sector público sente o direito de expressar a sua indignação com greves, pois se os seus "patrões" são ...o Estado, essa entidade de recursos ilimitados, que pode perpetuar resultados negativos até que a soberania se perca ainda mais, sob pena de resgates superiores.

Pergunto:
- será que os funcionários públicos que não aderem às greves do sector público têm uma conduta anti-constitucional?
- será que os funcionários públicos são coagidos, sob pena de violência, a fazer greve?
- será que os sindicatos apresentam soluções alternativas, antes de marcar os seus gloriosos protestos?

Há um intenso espalhafato em torno das greves, mas não há estudos feitos sobre a sua eficácia.
Revelam emoções negativas do sector público...enquanto as emoções negativas do sector privado são resolvidas com o desemprego.

Virá um ciclo positivo (sempre vêm...revejam a História!),  e então, gostaria de ver marcação de greves em protesto de aumentos irreais de ordenados face aos níveis de produção...pois, nunca haverá, é claro.

Parecendo que não, confesso que:
- estou profundamente magoada com as medidas deste Governo;
- estou profundamente chocada com a irresponsabilidade de todos os partidos da Oposição;
- reconheço vozes independentes de grande qualidade mas sem acesso ao poder.
Pergunto a mim própria sobre se quem governa este país não será antes uma enorme seita Maçónica, que impossibilita qualquer acordo de partidos para verdadeira reforma do Estado, por forma a assegurar a perpetuidade dos cargos de poder.

Admitiria as greves em trabalhos pesados, como minas, siderurgia, indústria pesada (que temos tão escassamente...) onde sempre houve tendência mais evidente para explorar o trabalho com excesso de horas.
Mas não entendo o protesto ao "não trabalho!" no sector público.

Neste contexto de modas e de protestos inconsequentes, acho que o Presidente da República deveria pedir um parecer sobre a constitucionalidade das greves do sector público, num país sob resgate, sem autonomia financeira e, por isso, sem qualquer possibilidade de escolha. E ... vindo o TC a ser certamente favorável à constitucionalidade, porque não marcar sucessivas greves no sector privado?
Pois é...não parece nada bem, não é?

Finalmente: entendo que, civicamente, todos devemos procurar formas de apresentar soluções, desde atitudes de trabalho até organizações de intervenção cívica. A todos compete fazê-lo, enquanto vivemos no nosso País.




sábado, 12 de outubro de 2013

A maioria política em Portugal

Nas recentes eleições autárquicas, e para além da forte abstenção de 47,4%, o nº de brancos e nulos foi 6,82%.
Mais do dobro que nas anteriores eleições.

54,2% dos eleitores não quis votar em nenhum dos partidos.

Temos então um imenso partido de silêncios, de hesitações, de falta de esperança. Um partido maioritário. Certamente unidos por factores comuns.

Não se reconhecem no governo, mas também não se reconhecem em qualquer dos outros partidos da Oposição.

Ignorando os que o fazem por, simplesmente, terem a inércia de não assumir posições civis - o que é assustador, uma vez que a democracia foi duramente conquistada - , temos certamente uma maioria silenciosa que tem vindo a aumentar. Desanimada e, pelos vistos, já completamente apartidária.

Temos:
- os que votaram num dos partidos do governo e se sentem agora órfãos de partido...cansados da demagogia absurda do principal partido da oposição, incapaz de reconstruir os cacos dos erros do passado e de assumir um compromisso para um pacto de regime;
- os que, tendo-se já reconhecido no principal partido da oposição, admitem agora ser necessário ir mais além no discurso, reinventá-lo, abandonar passados ideológicos e viver intensamente o perigoso presente,  com compromissos e sem apostar nas próximas eleições;
- os que tanto acreditaram na democracia e vêm agora, que a corrupção minou os principais partidos dos governos que se sucederam, incapazes agora de unir esforços para um compromisso comum;
- os que não entendem o imenso poder de um Tribunal Constitucional que, afinal de contas, governa de modo intemporal, aleatório e absurdo.

Houvesse um "Partido de Independentes", por enquanto livre da corrupção de seitas de poder, seria o próximo a governar. Com toda a inexperiência política de falta de troca de favores, mas com a estoicidade e heroísmo de quem não quer acreditar na falência do seu país.

Houvesse um partido de filósofos, sociólogos ou historiadores que apostasse na Educação como o mais relevante Ministério, e teriam um surpreendente apoio de tantos pais e mães que receiam pela incultura e impregabilidade dos seus filhos.

Houvesse um canal de media que só contasse o que de bem se faz neste país, e seria o meu único e exclusivo canal de notícias.

Houvesse uma supervisão de ética ao jornalismo que multasse os accionistas dos canais que permitem divulgação de notícias escabrosas e violentas que todos os dias inundam as nossas casas.

Houvesse um louco que, qual Papa Francisco que depois de eleito pelos seus pares, viesse a revolucionar sem medos a forma de exercer a sua função...e teria o meu voto. Um totalitarismo anti-democrático? Seja...que esta democracia apodreceu por entre o imenso betão do país.

A maioria silenciosa está exausta, é apartidária e não vota mais nestes partidos.





sábado, 31 de agosto de 2013

"Portugal...a great culture!"

http://www.kwintessential.co.uk/resources/global-etiquette/portugal.html

Convido-vos a espreitar o site acima. Uma visão sobre os nossos costumes, valores, comportamentos. Não como "tugas", mas como cultura muito particular e muito diferente dos nossos parceiros latinos do sul da Europa. Não somos melhores, não somos piores, somos...assim...vejam, como nos vêem.
Gostei bastante de ler, reconheci-me(nos)!

Alguns registos extraídos deste site e, desculpem...mas assinalei alguns, desde já aqui fica a minha legenda:
*;) winking   olha olha, descobriram isto!
*:-? thinking será verdade?

Sobre sociedade:
- a família é a fundação da estrutura social e a base de estabilidade *:-? thinking;
- o nepotismo (favorecimento de familiares) é socialmente e profissionalmente bem aceite *;) winking.

Sobre comunicação
- somos formais e conservadores;
- essa formalidade é vista como gentileza.

"A aparência interessa..."
- apreciamos moda e reconhecemos poder e sucesso a quem se veste com roupas de marca *;) winking

Hierarquia, autoridade
- sociedade muito estratificada, hierarquia muito vertical e centralizada em poder pessoal, para além dos consensos abaixo *;) winking;
- respeitamos a autoridade e a idade *:-? thinking.

Negócios
- privilegiamos contactos pessoais aos contactos informais, ao ponto de ter que retroceder negociações e reiniciar com nova pessoa caso saia o interlocutor que a iniciou *;) winking;
- não aceitamos bem a frontalidade  *;) winking;
- em apresentações, privilegiamos responder a dúvidas no final, a ser interrompidos publicamente *;) winking;
- não somos emotivos no discurso nem nos gestos, podendo esse comportamento ser entendido como agressividade; por outro lado, demonstramos generosidade no desenvolvimento da relação *;) winking;
- as reuniões são mais debates de ideias do que orientadas para cumprimento de agenda *;) winking;
- as datas-limite não são cruciais, comparativamente com outras culturas *;) winking;
- a pontualidade é importante mas não é fundamental; não se irrite com atrasos de 5 minutos *;) winking;
- as tácticas de pressão de vendas não são apreciadas *;) winking;
- respeitamos contratos *:-? thinking.


Foi mais um desabafo público sobre o meu gosto em ser portuguesa. E em como quero transmitir isso, vivamente, no meu dia-a-dia. E em como não devemos encolher os ombros e entender tudo o que é mau como uma fatalidade.







Constituição ou Tribunal Constitucional?


Momento I 
Desde a 1ª intervenção do Tribunal Constitucional neste contexto "Troika" que decidi dever ler a nossa Constituição, com o respeito que me devia merecer.
Desde a Decisão ao Acto...demorou todo este tempo, longuíssimos meses. Porque, confesso, esse respeito tem vindo a deixar-se substituir por aversão, tal é o aparato com que um oligárquico poder toma decisões:
- acima da "soberania popular" tão consagrada na Constituição que votou num governo maioritário e que sempre terá o poder de o castigar nas eleições seguintes;
- acima das exigências dos credores a que tivémos de nos submeter por excessos criminosos de governantes passados;
- e...pergunto eu...a propósito ou acima desse fundamental documento que é a nossa Constituição?

Para responder a esta dúvida, tinha que ler a Constituição. Uma primeira de mais leituras, a que qualquer documento fundamental nos obriga.

Momento II
Terminei a leitura ontem à noite.
Não é um documento tão extenso quanto imaginava e, sobretudo, tão complexo que obrigue a tão demorada reflexão por um órgão a quem compete exclusivamente dominar o seu conteúdo. Mais, a existência desse órgão fiscalizador - Tribunal Constitucional (TC) - está obviamente consagrada na Constituição, como mecanismo de garante do seu cumprimento.
Mas...sem me querer arrogar a substituir os nossos ilustres constitucionalistas ou membros do TC...julgo que todos os portugueses que aceitem o desafio de ler esse documento fundamental, não só doutrinal como também pragmático quanto à nossa organização (política, económica, judicial, social e laboral), podem competir com essas ilustres opiniões. Agora, posso afirmá-lo.

Em jeito de argumentário da minha opinião pessoal, eis alguns comentários e destaques:
- O Preâmbulo, não obstante as revisões efectuadas, mantém o contexto emotivo de "derrube do regime fascista" e exaltação da "sociedade socialista"; se o primeiro facto me merece respeito porque faz parte da nossa memória colectiva, já a exaltação da "sociedade socialista" parece-me claramente abusivo; é até extraordinário que nunca tenha sido matéria para destaque negativo pela nossa comunicação social, assim evidenciando a sua tendência partidária dominante;

- destaco 2 artigos:

da Parte I - Princípios fundamentais, art. 9º "Tarefas fundamentais do Estado":
a) Garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas, sociais e culturais que a promovam;

da Parte II - Direitos e Deveres Fundamentais, Título I - Princípios Gerais, Art. 22º - "Responsabilidades das entidades públicas"
O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis, em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias ou prejuízo para outrém.

E assim, as conclusões que para já tirei para mim própria:
- não é um documento complexo no sentido em que não há evidentes conflitos de clausulado ou significativas dúvidas quanto à hierarquia de importância dos respectivos conteúdos; isto porque consagra permanentemente o princípio de igualdade e dignidade social de todos os cidadãos, acrescendo apenas responsabilidades superiores ao exercício de funções públicas;
- é-me evidente haver aproveitamento do documento para fins políticos, no sentido de salvar o sector público, em detrimento do sector privado...e aqui, sim, há para mim clara violação da Constituição mas por motivos opostos aos que são invocados pelo TC.

Em suma: o TC está para a Constituição como, infelizmente em muitos casos, a Igreja (no sentido da sua hierarquia) para a Bíblia.  Pecam os homens que interpretam abusivamente um documento fundamental. Apenas e só isso.

Momento III
Estou agora mais em paz com a nossa Constituição e transferi a minha aversão para o Tribunal Constitucional. Não como Instituição, mas como colectivo de homens e mulheres que interpretam tendenciosamente o seu conteúdo, esquecendo a tarefa fundamental do Estado de "Garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas, sociais e culturais que a promovam" (art. 9º acima citado).

E, por entre esta tranquilidade, fui reler o poema de Fernando Pessoa "Mar Português" que, a par da Constituição, convido a nova leitura...alguns excertos que aqui ficam e que, de novo, me emocionaram:
"
(in VII)
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu
Foi Deus a alma e o corpo Portugal 
Da mão que o conduziu.

(in X)
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.

XII. Prece
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!"


NOTA FINAL
Há indicadores positivos na economia portuguesa, contra o que o absurdo jornalismo nos quer fazer crer.
Há também uma cultura de entre-ajuda que sustenta o dia-a-dia de muitos portugueses em verdadeira aflição, a par de empresários que não desistem dos seus projectos e da manutenção dos seus empregados. Há muitos bons exemplos, e a prova em como o saldo é positivo é reflectido nos indicadores económicos que começam a inflectir a sua tendência recessiva.
Vamos conseguir, de novo, dobrar o "Cabo das Tormentas".
Por favor, senhores do Tribunal Constitucional...sejam responsáveis.

domingo, 14 de julho de 2013

IWorld

"-Viste o meu email de ontem?
- Email? Mas acho que enviaste SMS.
- Não, enviei-te email com imagem em anexo do sítio onde estava!
- Ahh, achas que conseguia ver? Tens que enviar MMS, não se consegue abrir ficheiros, não tenho ipad.
- Ih, pensava que tinhas já iphone! Bem, então da próxima tenho que ligar primeiro, não me digas...
- Ou então publica no facebook, vejo de imediato no meu Nokia, tenho acesso;
- Ah, ok.

(não se falou de nada...certo??? E, confesso, faço parte destes diálogos absurdos e digo estas parvoíces.
Mais: uma pessoa mais atenta cedo perceberá das minhas imperfeições neste domínios...)

"That's it! The wonderful world of... IWorld!"

Antes de comunicar o que se pretende partilhar, é fundamental o clickar" ou o "touch" e...já está! Se a outra pessoa receber e gostar, pode fazer ou um "like" ou um "risonho" e pensa-se, reconfortado:"Ah, este é meu amigo! E está atento, é moderno, não é nenhum tótó".

Caso não reaja no momento, fica cadastrado como não tendo atenção aos amigos, ou não estando devidamente actualizado.

Em suma...neste "IEverything" já não se pode estar sossegado. O silêncio é simplesmente banido da nossa avançadíssima civilização.


Esta realidade tem impactos quase completamente fora do nosso controle, eis alguns de que me lembro, na sequência do actual contexto de crise política:

- após um comunicado de uma figura do Estado, os partidos políticos e os analistas têm que pensar em escassos minutos e magicar uma reacção que pareça altamente amadurecida ... de imediato, os jornalistas fazem perguntas e exigem reacções. Caso nada haja a dizer, vêm os analistas crucificar a incapacidade de quem simplesmente precisaria de tempo para amadurecer uma posição. Ou então, vêm os jornalistas acusar os entrevistados de algum complexo com o jornalismo e a sua pretensa livre opinião.
Logo...é difícil que haja reacções com bom senso.
Há soluções para resolver esta vertigem de media, claro...se houvesse uma supervisão com regras de conduta que obrigasse os senhores jornalistas a esperar, em momentos de particular importância que assim fossem previamente classificados pelos nossos dirigentes políticos. E tantas outras soluções que não são pensadas porque se vive uma loucura colectiva de ruído e de rápida informação;

- os mercados financeiros reagem on-line a tudo, até mesmo aos silêncios; mas funcionam em função das das convicções dos investidores, simplesmente isso.
Actualmente, vive-se um intenso "trade-off" entre Norte e Sul: ganham os do Norte que, para além das suas boas contas de Estado, ganham mais se especularem nos desgraçaditos do Sul. Em contrapartida, os do Sul, minados de falta de confiança nas respectivas Pátrias, compram dívida pública dos países do Norte, sem discutir a remuneração próxima de 0. Um refúgio, a troco do descrédito na sua nação.
Bom...os mercados têm que funcionar, não tenho nada contra...o que lamento é a falta de confiança, por seu turno induzida pelos media sedentos de discórdias. Um caos.

Sinto que tenho a imensa sorte de viver no tempo da Internet, da imensidão de meios de comunicação, da plenitude de informação com enorme rapidez, das redes sociais que nos dão contactos, feed-back e conhecimento com uma velocidade estonteante.

Mas também sinto que, não só este "IWorld" deve ser mais regulado (haja exigência aos media de respeitar silêncios), como também, cada um de nós deve cuidar da necessidade de...sossego. Não termos medo de não estarmos sincronizados "on-line" com tudo e com todos. Num mundo quase completamente "wireless", não deixar de sentir o comando do nosso silêncio.





quarta-feira, 3 de julho de 2013

Carta ao menino Paulo Portas

"Menino Paulo Portas,

Assim me obrigaste a este tratamento: por "menino".

É claro que, caso tenhas verdadeira consciência individual, ética e sentido de Estado, não arrastas os restantes colaboradores do teu partido, no Governo. Ainda podes revelar a coragem de assumir simplesmente um desgaste individual, uma divergência profunda. Sairias simplesmente, cheio das tuas razões, mas sem destruir o pouco da CONFIANÇA que nos resta.

Mas talvez seja pedir demais...é tão melhor este intenso protagonismo, este "grito do Ipiranga", esta sanguinária loucura. Cheio de gozo no imediato, e completamente destruidor a prazo do teu e nosso País, e até mesmo, do teu futuro político.

Contudo, repito, ainda tens hipóteses de reparar o teu erro: se os outros Ministros e Secretários de Estado do teu partido, não apresentarem a demissão, se afinal tiverem rosto e consciência individual acima do espírito de seita.
Mas, se te seguirem, passas a ter o fardo do odioso da maioria silenciosa que tem ajustado a sua vida em prol da nação, para cima de ti. Aí, revelas-te um cobarde. Afinal, um jornalista da pior espécie.

Vais hoje fazer uma comunicação ao País.
Não sou capaz de te ouvir. Só é verdadeiramente relevante saber se é uma decisão individual ou do partido e, para isso, não precisas de tanta pompa e circunstância. Já chega de comunicações ao País. Essa função só compete ao Primiero-Ministro e ao Presidente da República.

Só serias de facto genial e verdadeiramente engenhoso se tivesses feito a tua Oposição com mérito na coligação, se tivesses sido capaz de negociar com o Passos Coelho e sua equipa.
Mas, pelos vistos, não foste capaz.
Não sabes ser um nº 2, preferes ser o nº 1 de um pequeno partido, certo? É tão mais simples estar na Oposição, pois é.

Mas...insisto...caso a tua posição seja apenas e só, pessoal, então farias parte daquela estirpe de verdadeiros homens de Estado.

Vamos ver se vais ou não cair na tentação da vulgaridade.

Espero poder promover-te de "menino" a "senhor".


(hoje escrito, com a emoção de um 2º momento, em plena verdadeira crise política, à beira de um abismo irreparável nos próximos anos....só reparável daqui a algumas gerações).

terça-feira, 2 de julho de 2013

Paulo Portas versus Passos Coelho

Vivemos hoje um dia estranho.
Paulo Portas anuncia a sua demissão "irrevogável" (será que há demissões "revogáveis"? estranha figura de estilo).
Passos Coelho - acabei de ouvir o seu discurso - não solicita a exoneração de Paulo Portas ao Presidente da República.
Os partidos da Oposição mantêm os seus discursos, desinteressantes porque demasiado previsíveis.

Os Partidos da coligação manifestam surpresa e prudência.

Ou estamos a assistir a um intenso xadrez político, ou então a emoções de desgaste, ou um misto de ambos. Sim, porque pode haver simplesmente desgastes. Não há heróis, senão nas esculturas.

É-me agora legítimo "apostar" no que irá acontecer...em total incerteza, é mais interessante reflectir. Os diagnósticos tardios sobre o que aconteceu...são estupidamente maquiavélicos e com muito menos interesse.


Comecemos por Paulo Portas.
Um político muitíssimo mais hábil, experiente e controverso que Passos Coelho.
Um engenhoso discursador.
Apresenta a sua demissão como "irrevogável", numa estranha repetição de ideias. É que, apresentar a sua demissão como "revogável" ou "reversível" teria sido patético, Mas apresentá-la como "irreversível" não é uma questão de força, não é uma figura de estilo. Parece ser um sinal a Passos Coelho em como não aceita negociar mais nada. Aparenta que já o terá feito até à exaustão.
Mas...se fosse de facto irreversível...não teria necessidade de assim designá-la.
Quem está determinado ou desesperado, sem qualquer espaço de negociação, apresenta-se cruamente, sem adjectivos, sem redundâncias, com o vazio da decisão final.
Quem ainda pode e quer negociar, contém a emoção de figuras de estilo no seu discurso.
Logo...parece-me bem que ainda há espaço para se manter, nem que seja numa posição mais activa de oposição dentro da coligação. E...se possível.. com o protagonismo dos media.


Passemos a Passos Coelho.
Se há portugueses que podem considerar-se verdadeiramente desgastados, Passos Coelho tem necessariamente que ser um deles. Carrega o "fardo da liderança" - como muito bem Vítor Gaspar lhe escreveu na sua carta de pedido de demissão -, enfrentando a oposição de quase todos, a começar pelos membros do próprio partido.
É menos experiente, menos habilidoso que Paulo Portas. Por isso, menos ardiloso mas mais sério.
E, muito bem, não aceita a exoneração de Paulo Portas. Entendeu dever haver espaço de negociação, entendeu ter que deixar que Paulo Portas assumir o protagonismo que tanto ambiciona. É assim a Democracia...antes que sucumba às seitas organizadas de poder obscruro de que são exemplo uma Maçonaria ou uma Opus Dei.
Passos Coelho fez o passo maduro que devia fazer.

O resto...sinceramente...pouco ou nada interessa.

Com isto, acredito que haja reentendimentos, novos compromissos. Afinal de contas, o Governo tem legitimidade para governar.

Estamos num fio da navalha. Numa espécie de "intervalo" da epopeia "E tudo o vento levou". E é quando tudo parece estar quase perdido, que se readquirem forças. Nunca se sabe qual o limite das nossas forças.

Falta-nos agora este reequilíbrio político para iniciamos aquela fase que sempre vem a seguir à austeridade: o investimento. Falta o penoso caminho de reconquistar clima de CONFIANÇA.

Esta situação tem o mérito de transmitir sinais a quem os souber ler.

Não há "arrufos" entre Homens de Estado.

(escrito num 1º momento, após o discurso de Passos Coelho. Com as emoções que, inevitavelmente, não pude esconder. Mesmo que não acerte na minha expectativa...foi um gosto reflectir por escrito).

sexta-feira, 31 de maio de 2013

27 Junho: greve à greve!

Sinto vergonha com esta marcação de greve geral para o dia dos exames nacionais dos nossos jovens dos 2º e 3ºs ciclos.
É uma atitude irresponsável, violenta, subversiva, sem respeito pelo trabalho dos nossos jovens.

Devia ser pedido parecer ao Tribunal Constitucional: o que deve ser privilegiado? O dever de fazer os exames nacionais ou o direito à greve geral nesse dia? E os exames nacionais são um dever ou um direito? Devem os alunos sentir um dever em fazer um exame nacional, ou sentir o direito pela educação?

E há ou não o direito de fazer greve à greve?

Pois é...que confusão de valores. O que vem primeiro, afinal? Em que tipo de sociedade vivemos? O trabalho é um direito ou...conquistam-se direitos depois do dever do trabalho?

...voltemos ao princípio...

A greve tem uma justificaçao histórica muito digna e legítima. Foi consequência da exploração fabril, da falta de direitos por entre muito suor de trabalho. Em honra dos que sofreram para criar o direito à greve, não pode ser usado com perversão ou banalização.
Imagino-me grevista num contexto de opressão e em que seja desrespeitada ou destratada. Agora... numa sociedade regida por uma Constituição e um regime laboral que prevê "os" direitos fundamentais"...o direito à greve tem que ser bem pensado.

Também estou escandalizada com a severidade dos tempos, sobretudo com o endurecimento da vida dos pensionistas; os meus pais são de uma geração em que o valor "trabalho" em vez do "mandar trabalhar" dignificou-os enormemente como pessoas de qualidade e integridade. E tenho-lhes um respeito profundo, admiro essa geração que viveu com respeito pelo "Estado", reconhecendo não a sua abstracção como se de um ente estranho que suga impostos se tratasse, mas antes fazendo parte de um extraordinário sistema de serviços públicos em que crescemos.

Este apelo à greve num dia fundamental para os nossos jovens, tem o mesmo grau de frieza com que os dirigentes políticos destrataram os nossos pensionistas.

Parece que os sindicalistas não têm filhos...e os políticos não têm pais...são igualmente "afamiliares", ou então uma estranha raça de agregados familiares unipessoais...

Esta greve atropela um património essencial do país: a educação. E, por isso, não merece o meu respeito. Vou antes exercer o meu direito de trabalhar no dia 27 de Junho.



sábado, 18 de maio de 2013

"We can do it"! Um património



Entrei no seu gabinete e fiquei...por entre a confusão de telas, cores, texturas e detalhes afins do seu enorme espaço de trabalho...fixada nesta tela. Ela percebeu e sorriu-me, com aquela cumplicidade feminina de quem sente a coragem e força de ser mulher. Continuámos a nossa troca de impressões e, julgo, não tenha tido a noção em como esta tela me tinha inquietado de forma tão poderosa.

Quando cheguei a casa, procurei e encontrei a sua História (sim, História com H maiúsculo, que histórias é coisa que nos sai à mesma velocidade com que nos entra):
- o cartaz foi criado em 1943 por J. Howard Miller, para a Westinghouse Electric Corporation, baseado numa fotografia de uma operária numa fábrica em Michigan, como imagem inspiradora para levantar o moral dos trabalhadores em plena 2ª Guerra Mundial;
- mais tarde, foi usado para promover o feminismo e outros temas políticos da década de 1980;
- foi capa da Smithsonian em 1994 e tornou-se um selo postal dos Estados Unidos;
- foi usado em 2008 como material de campanha para vários políticos norte-americanos e foi reformulado por artistas em 2010 para celebrar Julia Gillard, a primeira mulher a tornar-se primeiro-ministro da Austrália.

Que esta imagem me fique gravada na minha "História"...no sentido em que não devo esquecer e me deve colorir o fundo do que sou feita.

Não só pelo facto de ser mulher e de gostar dessa condição. Mas também porque me sugere várias ideias de força:
- "to do", o "fazer"... o "arregaçar mangas", o não orientar trabalho sem a experiência de o saber fazer; é o meu património, o principal legado ao meu filho, e que ele saiba cuidar durante toda a sua vida;
- "we can", a alquimia; o "acreditar" que parece simples mas não é, só é chamado aos nossos ânimos quando nos parece impossível ultrapassar o que quer que seja. E...vamos lá ser francos...só é possivel quando sentimos que não há afinal nada a perder, com a coragem do desapego pelo que se tem;
- "it" ... exactamente "aquilo", o que tem que ser feito, sem conseguir vislumbrar o que se segue, sem supôr que a etapa seguinte virá por acréscimo, sem "to do" ou sem "we can".

São três conceitos muito simples, parecem básicos, estupidamente comuns. Mas são o ânimo do dia a dia, da vida e o que fará os nossos filhos inspirar-se e não vacilar nas dificuldades.

Um legado cultural que perdemos no ADN de portugueses em Portugal, mas que sabemos usar tão bem além-fronteiras.
Mas sobretudo, um estado individual de alma, uma religião de vida.
Um acto de fé.
"O" património. Porque desta vida não levamos nada, deixamos ficar simplesmente as nossas Boas Memórias, a nossa história ou "História" consoante tenhamos ou não sido capazes de viver simplesmente no reinado de "We Can Do It!".





sexta-feira, 3 de maio de 2013

A minha responsabilidade pela crise



PRÓLOGO - EM JEITO DE COMÉDIA

Pensando bem...tenho a minha quota-parte de responsabilidade por este contexto a que todos designamos de "crise", pelo que, aqui ficam as minhas desculpas pelos seguintes factos:

Pelas poucas vezes em que entrei numa loja de chineses para comprar quinquilharias e pequenas utilidades; de certeza que terei provocado uma qualquer redução de vendas a comerciantes portugueses, mesmo que nada tenham produzido e vendessem mais caro os mesmos produtos comprados, também eles, a chineses.

Pelas vezes em que andei por estradas secundárias em vez de pagar as SCUT's assim não ajudando o Estado a recolher as suas justas receitas pelo endividamento que assumiu, mas a pagar pelos governantes que se seguissem.

Pelas vezes em que não pedi facturas pelos cafés que tomei, deverá ter sido seguramente equivalente a um valor de imposto que pagasse um almocito com direito a sobremesa.

Pelas vezes em que devia ter separado devidamente o lixo, desconfio bem que por cada vez que misturei plástico com biodegradável, devo ter diminuído os justos lucros de quem investiu no sector de resíduos ou de quem recicle plásticos assim reduzindo custos e mantendo preço de venda.

Pelas vezes em que critiquei os políticos em vez de investir em colar cartazes e prosseguir a gloriosa carreira até ser adjunta de uma qualquer Secretaria de Estado e aí sim, dar valor às duras omissões que teria que aprender a suportar para bem governar a nação.

Pelas vezes em que adoeci e não devia, visto que terei contribuído para o congestionamento dos serviços de urgência e deverei trabalhar até aos 90 e tal anos para cumprir com a minha quota-parte no défice do Estado.

! eheheh!

EPÍLOGO - EM JEITO DE VERDADE

...mas tenho seguramente quota-parte de responsabilidade em outros assuntos.

Pelas vezes em que não reparei se a fruta era portuguesa e, estupidamente, comprei maçã "Royal-gala" francesa ou uvas do Chile;

Pelas vezes em que não reclamei nas lojas com a ausência de etiquetas sem "made in Portugal";

Pelas vezes em que tive preguiça em confirmar a origem dos produtos e em que pudesse tantas e tantas vezes ter recusado produtos feitos em países onde não há qualquer legislação laboral nem ambiental;

Pelas vezes em que me dispus em falar línguas estrangeiras, admitindo a dificuldade do português, apesar de muitos ingleses, espanhóis, franceses, nada terem a opôr à aprendizagem da nossa língua que afinal, é o nosso legado cultural mais óbvio;

Pelas vezes em que liguei o computador em vez de pegar num livro,

Pelas vezes em que gastei água desnecessariamente, sem olhar à poupança de um recurso que é escasso em tantos países;

Pelas vezes em que deitei fora restos de comida;

Pelas vezes em que devia ter sacrificado mais vezes o meu olhar a quem, de facto, precisa de ajuda e do meu tempo.

E por tantas outras coisas por que, afinal, teria valido a pena parar e antes continuei, empurrada pela velocidade dos tempos abundantes e fartos de recursos.

EM JEITO DE CONCLUSÃO

Vivemos tempos muito severos mas sem a esperaça anulada que as gerações dos tempos de guerra terão sentido, com a morte à espreita.

A crise que sentimos transcende então, largamente, a perda de valor económico.



segunda-feira, 8 de abril de 2013

25 de Abril 2013 ?

Passados 3 meses de profunda reflexão e hibernação de espírito - visto que as consequências do parecer estavam já quantificados em todas as medidas - o Tribunal Constitucional (TC) veio dizer de sua justiça.
Vejamos quais os cenários que seriam expectáveis:

I. O cenário que, afinal, há 3 meses, seria menos mau:
O Governo não teria arriscado tanto, teria antecipado eventual pedido de parecer ao TC e a eventual reprovação de medidas, e teria desde logo introduzido cortes profundos na despesa do Estado. Já estaríamos a conviver com a extinção do "polvo" de poderes autárquicos que sustenta grande parte do interior do país, muitas das Fundações, muitos dos cargos em PPP's, muitos dos professores em situação de "mobilidade", e teria assim provocado um "enorme" aumento do desemprego, a seguir ao "enorme" aumento de impostos. Teria sido ainda mais odiado, só que mais cedo.

II. O cenário que, afinal, aconteceu (!)
O Governo arriscou e confiou, numa espécie de acto de fé. O risco foi demasiado elevado e agora, a uma semana de tentarmos renegociar a extensão dos prazos dos empréstimos e de conseguir emitir a 10 anos, não vamos conseguir manter a credibilidade externa que recuperámos num ano.
Agora sim, eis-nos num fio de navalha que poderá inclusivamente suspender os necessários pagamentos até para ordenados na função pública.

III. O cenário alternativo
Não existe. O contrário dos 2 anteriores é uma impossibilidade prática.

Em jeito de conclusão, temos então que, mesmo com maioria, é impossível governar. Ou não? Ah, pois, seria possível, se:
- tivéssemos uma oposição responsável, com compromisso de apresentar soluções, sem que falhasse a memória do principal partido da Oposição em ter assinado o Memorando com a Troika; e se assim fosse, teria certamente o Governo negociado medidas do OE 2013 com o maior partido da Oposição;
- consequentemente, diante desse maior compromisso e consenso político, teria diminuído a probabilidade de o Presidente da República solicitar parecer ao TC.

Mas, em vez desse contexto de bom senso, minimizador dos efeitos sociais perversos e da sanguinária comunicação social, temos então:
- o regresso do Senhor Engenheiro Sócrates, ainda mais inflamado e previsivelmente ainda mais perigoso, incapaz de assumir a mínima responsabilidade pelo passado. Uma licenciatura completamente precária mas imaculada pela sua extensa retórica. Um discurso "prolixo" que, em bom português significa "redondo, sem conteúdo" mas que bem pode ser apelidado de "pró-lixo", tamanhas são as barbaridades que diz num tom de voz treinado para teatro;
- uma oposição irresponsável, vazia, anárquica, violenta, demagógica, medíocre, inflamada de direitos e sem obrigações;
- um sindicalismo pleno de gritos, patético, desgastado.

É impossível governar sem ausência de erros, mas neste contexto, só é permitido governar com erros.
Para todos, o ar tornou-se quase irrespirável.
Não sou a favor do governo, é claro que não me identifico com a oposição política que temos, é-me simplesmente evidente que devíamos ter uma oposição com menos discurso e mais soluções, mais compromissos.

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Sobre a "democracia"

O sistema político democrático foi uma criação dos atenienses; ao invés dos sistemas de poder inequívoco e não elegível - em castas sociais abastadas e/ou chefes religiosos -, os Gregos criaram a "Polis" e os "Políticos", no sentido em que todos os cidadãos teriam idêntica oportunidade de acesso ao poder. Um sistema político muito arrojado para a época, e com elevado risco de eficácia, visto que não era certo que a maioria fosse mais esclarecida e que as decisões fossem mais acertadas que as de um poder confiado a uma minoria não eleita. Um extraordinário risco, a bem da igualdade de oportunidades…o sistema mais humano, teoricamente mais justo e confiável, mas o mais falível.

Estes riscos do sistema democrático são portanto, muito conhecidos desde há muitos séculos, ainda antes de Cristo. E mesmo sem comunicação social, facebook, sistemas financeiro e industrial consolidado...a probabilidade de o sistema democrático agonizar e até mesmo, falir, para alternar com outro sistema, é bem conhecida.
Diz-nos a História que, apesar dos seus paradoxos, a democracia é o sistema político menos imperfeito.
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Hoje, sinto no meu país que tanto amo, que a democracia está em risco.
E que a ditadura dos sindicatos seria a anarquia.
E que a ditadura da oposição seria a falência do país por muitas décadas.

Portanto…resta-me fazer o que está ao meu alcance no dia-a-dia para ajudar quem posso, para emprestar sorrisos a todos com quem me cruzo, para continuar a trabalhar com dignidade, para saudar as pessoas e instituições que asseguram a solidariedade social que o Estado não consegue cumprir.

No dia 25 de Abril de 2013, vou sentir a interrogação do significado do dia, mas...teimosamente...vou ter fé em como não foi em vão.

 


segunda-feira, 11 de março de 2013

"Grândola, vila morena"? Por favor, respeito...

Por favor...respeito pela dor de quem sentiu cada palavra desta canção, na sua época.
Por favor...preservemos a memória de uma geração que sonhou com o "nosso" Abril, incerto do seu resultado.
Por favor...não se misturem os tempos.
Por favor...não se repitam os erros.

É que a geração seguinte à que fez Abril acontecer, teve uma época dourada de crescimento, à conta de subsídios ininterruptos que criaram uma explosão de mais empregos do que trabalhos...Uma espécie de "belle époque" que poucas vezes existe na História da Humanidade.

Se hoje tivéssemos que inventar um hino para renovar a liberdade, teria necessariamente uma letra mais cosmopolita, mais longe da realidade dos campos alentejanos."Fraternidade" e "igualdade" não foram simples palavras, foram realidades conquistadas com silêncios, muito trabalho e muito sofrimento. E foram cantadas como que arrancadas do peito com a insolência de quem nada tem a perder.
Os tempos seguintes de abundância generalizada criaram antes "desigualdade" e desprezo por "fraternidade", num irónico vazio de valores que, afinal, sucedeu à conquista da liberdade.

Não...o hino dos tempos actuais tem que ser outro...não nos podemos apropriar do hino que foi penosamente feito por quem sonhava d'alto com verdadeiros ideais e verdadeiros desapegos.

Os tempos são duros para todos, é verdade. Mas vivemos num tempo em que se comunica de forma inteiramente livre e até impune para quem queira mentir em plena comunicação social...sim, as opiniões ecoam ilustremente, a salvo de qualquer punição. E é quem verdadeiramente mais sofre, é quem verdadeiramente passa fome, é verdadeiramente quem luta diariamente por reconquistar a sua dignidade com o seu trabalho...que não canta o "Grândola, vila morena".
É uma canção demasiado bela para ser assim apropriada por quem, apesar de tudo...vive em democracia.

A liberdade é um valor supremo pelo qual se faz uma guerra...para depois se desperdiçar por entre a avidez e os apegos de um "i-tudo", ainda por inventar pela genial Apple.

Vou teimar neste "acto de fé" que é acreditar em como, de novo, renovaremos forças para preservar a liberdade.
Austeridade e crescimento não são compatíveis...antes se sucedem, são consequência um do outro. Uma evidência histórica e repetível, mas não trágica.

Portugal está menos só que há um, dois anos atrás.

Preservo a memória desse belo hino "Grândola", nos meus silêncios de portuguesa convicta e orgulhosa do meu país...mas não o canto no tempo actual, porque a geração que me antecedeu e que o cantou com intenso vigor não teve a sorte do bom ciclo por que já passei.

Cabe-me fazer parte da geração de reconstrução do meu país. E se um dia tiver que entoar um hino nas ruas, será seguramente diferente.




domingo, 10 de março de 2013

Lincoln versus Argo

Mais um episódio da grandiosa epopeia dos Óscars de Holywood.

"Argo" é baseado numa história superior. Um resgate de extrema dificuldade que resultou graças á determinação de um homem e ao vertiginoso encaixe de coincidências felizes de decisões em cadeia que só acontecem quando a sorte ajuda à habilidade e coragem supremas.

Mas o filme não é de realização, interpretação ou produção superiores.
É simplesmente acima da média.
Curiosamente, o início conta a história do Irão de modo factual e desempoeirado para quem conclua tratar-se de um filme ao serviço do espírito imperalista americano...contudo, a memória é demasiado curta para relembrar os factos e acabamos com a íntima convicção da perversidade islâmica. Essa perversidade é, pelo menos em parte, e afinal de contas, um produto...americano.
Assim, em termos de juízo de valor, o filme é equilibrado, honesto, factual. Mas a sua história é demasiado forte para que nos lembremos disso, e ganhou uma dimensão épica pelo facto de retratar norte-americanos como vítimas.

"Lincoln" é baseado num homem superior.
Desengane-se quem espera ver cavalos e tiros de uma guerra civil e sangrenta, entre os maus do Sul e os bons do Norte.
Desengane-se quem pretenda concluir pelo humanismo de Lincoln na sua épica conquista do abolicionismo da escravatura, sem perversidade de meios.
Desenganemo-nos de lirimos: esse grande feito de grande humanismo foi a escalada de uma enorme montanha, sem garantias de avistar o cume, de planos maquiavélicos de moral duvidosa, entre comprar votos do partido da oposição e parelamente tentar negociar a paz, não fosse essa conquista de votos revelar-se ineficaz. E ainda, com oposição dos espíritos mais fundamentalistas do próprio partido.
"Lincoln" é também um filme superior. Actores, realização, produção, banda sonora, tudo se encaixa sem pretensiosismos de mostrar um homem bom com bons meios...mas com a coragem de mostrar os silêncios ou das suas omissões, ou das suas decisões aparecentemente contraditórias.
É de facto um filme superior, baseado numa história superior.

Mas é evidente que "Argo" reflecte, talvez até de forma surpreendente para o próprio realizador que simplesmente terá pretendido fazer homenagem a um homem corajoso, a inflamação dos espíritos imperialistas.

Acho que qualquer dos filmes é honesto intectualmente, é factual, não divide o mundo ao meio entre "bons" e "maus"; contudo, a leitura dos filmes pela maioria de opinião norte-americana terá estremecido com "Lincoln" e aliviado com "Argo".

"Lincoln" é um dos filmes da minha vida. E assim como o herói de Argo teve que abdicar da medalha na história real, também a equipa de Lincoln terá recebido "o" Óscar, numa cerimónia secreta, pelos verdadeiros apreciadores de bom cinema.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Accordo Ortoghráfiquo 2030



Uns senhores luso-brasileiros, de um regime oligárquico desconhecido de um país certamente daqui distante, decidiram que: "O português passa a privilegiar o critério fonético em detrimento do critério etimológico, aproximando a escrita da forma falada das palavras". Mas que bem. E assim decidiram, não porque nós, portugueses, estivéssemos confusos com a nossa forma de escrever, não porque os brasileiros não entendessem o português de Portugal, não porque as diferenças de escrita entre países de língua oficial portuguesa dificultassem quaisquer trocas comerciais ou culturais. Simplesmente decidiram e pronto. 

A cronologia das reformas ortográficas evidencia o reforço da irmandade com o Brasil, vejamos:
- O 1º Acordo Ortográfico foi assinado em 1931, entre Portugal e Brasil;
nunca foi posto em prática;
- Em 1945, entrou em vigor novo Acordo Ortográfico;
não foi ratificado pelo Brasil;
- Em 1996 foi ratificado o Acordo Ortográfico de 1990 por Portugal, Brasil e Cabo Verde (seria desta vez que resultaria na prática para todas as partes?)
Pois bem...Portugal introduziu a sua nova grafia no sistema educativo, em 2011, e nas publicações oficiais, em 2012...mas...o Brasil prorrogou a sua implementação para 2016.

Nós dizemos aos brasileiros: "légal, vamo fálá como voçês, né? Iscrévêmo párecido e pronto."
Ao que eles respondem: "caras...logo se vê".

Portanto, vivemos este abçurdo (absurdo? abessurdo? ora, tanto faz, então não estamos no império da fonética?) de grafia despersonalizada, de etimologia desprezada, de património mutilado.

Somos de facto, extraordinários. Únicos. Aspiramos a ser "bondosos" e deixamo-nos ser ultrapassados por meia-dúzia de supostos eruditos, comerciantes de línguas como se de mercadoria se tratasse. Património e mercadoria, tratados de igual para igual.
E eis-nos, numa maioria silenciosa, conformista, envergonhada, tímida, encolhida. Quase que pesarosos do nosso passado.

Não será impossível que, algures em 2030, um novo regime oligárquico desconhecido de outro país de novo certamente daqui distante, venha a refundar a língua-mãe e venha a promover novo "Accordo Ortoghráfiquo" com o nosso país-irmão, com novos pressupostos...não estranhem um futuro artigo de opinião dos fundadores, nos seguintes termos, e com as seguintes surpreendentes grafias e propostas:


"O nossum país-irmão Brasil tem vindo a prorroghar a adoção do accordo que acssinou connosco. Pesso desculpa, mas de factum, concluímos agora que, retirar da nossa ethimologia, as consoantes mudas, é retirar carácther à nossa língua.

Reçusssitemos o grafismo inaudhível e a distincção da língua-mãe. E agora, que se fassa com pressiosismo. Reccupere-se, com exagero, o que perdemos. Porque as civillizações não conhecem o estado “sensato” da evolucção; ou destroem com demasiado facilitismo o que demorou sécculos a construir, ou constroem velozmente um pallacium em cima de esccombros, sem qualquer estruthura."


eheheh...dá vontade de rir? Pois...mas do futuro, ninguém sabe. Por isso, pode mesmo ser um cenário (ccenárium??) possível...

A única certeza é a confusão linguística em que se vive atualmente, onde atualmente pode ser ou não actual, dependendo do ano, do local, da instituição e até mesmo do país onde se está.

A nossa língua envergonhou-se, escondeu-se, descaracterizou-se, reduziu-se a fonética, meus senhores, ou cenhores, ou çenhores, tanto faz, ou fas. Escreve-se como se fala e, nisso, seremos a língua mais democrática do mundo.

Alterar uma língua para privilegiar a maioria demográfica de outros países à identidade do país-mãe…é medíocre, pobre e ridículo. A língua é património, e tem simplesmente que prevalecer.Tem essa autoridade, essa legitimidade.

Que vergonha termos vergonha de sermos língua-mãe...assim descurámos a nossa identidade.

Este Acordo Ortográfico açaçinou a nossa cultura. Bem çei que não é açim que se escreve nem à luz do novo Acordo...mas cualquer dia, deixamos de escrever com erros, tudo valerá, a bem da fonética.

Voltar atrás? Tem custos, muitos custos num país que se pretende agora poupadinho...mas não se olhou a custos para alterar as publicações oficiais com o novo Acordo. Tristes paradoxos.
Sim, é possível voltar atrás...ou será que temos que pedir o parecer ao Tribunal Constitucional?
Não, submeter ao escrutínio de outro "regime oligárquico desconhecido de um país certamente daqui distante", é que não.

Poderíamos simplesmente voltar atrás, assim perdoando a dívida a todos os portugueses...sim, este Acordo criou uma imensa dívida de um pequeno grupo de senhores à esmagadora maioria de um povo a quem dói muito perder a sua identidade.