Total de visualizações de página

sábado, 17 de novembro de 2012

Carta ao nosso estudante de filosofia

"José ? (...desculpa, não me lembro bem do apelido, só sei que é de um filósofo grego)

Não leves a mal que assim me dirija sem invocar o teu curso de engenharia, mas…sinceramente…não faças questão. Não era preciso teres inventado o curso, as tuas competências são imensas e muitas delas não terias aprendido em nenhum Curso Superior.

Como sei que tens bastante tempo livre, e te dedicas agora a superiores assuntos de filosofia, poderás certamente reflectir naquilo que tenho para te dizer.

Não te sintas culpado por nada do que aconteceu ao país; na realidade, foste um produto nosso. A maioria do povo português confiou-te o governo da nação porque, simplesmente, personificaste o sonho da maioria, sabes porquê?
- porque não precisaste de curso superior para ter sucesso, és mesmo esperto;
- porque cuidas da tua imagem, vestes Armani e tens um largo sorriso;
- porque falas bem, numa capacidade imbatível de usar muitas palavras inúteis mas belas de se ouvir;
- porque entendes que o Estado é uma entidade abstracta que se pode endividar infinitamente, sem ter nunca que prestar contas;
- porque, assim como o Estado tem uma abstracção de dívidas, a obrigação do seu pagamento é uma enorme maçada inventada por gente chata, e quando for enorme, há-de-se renegociar sem perder credibilidade, numa espécie de ilusionismo financeiro que só tu conheces;
- porque manobras bem as palavras e sabes o que os eleitores gostam de ouvir;
- porque és mestre em manipular pessoas.

Na realidade, reconheço que a tua maior competência – a de influenciar pessoas – está a fazer falta ao nosso Ministro das Finanças, Vítor Gaspar. Abdicou ele da sua carreira internacional para vir fazer contas ao país…é evidente que está pesaroso com a equação impossível em que nos deixaste…faz-lhe falta uma pessoa como tu que saiba comunicar e influenciar e que nos explique que a alternativa a tudo isto seria termos saído do Euro, voltar ao escudo com a desvalorização de quase 50% e com um empobrecimento muito mais grave e súbito do que este.

Não há choques suaves…e antes que fosses chamado a prestar contas, foste estudar filosofia. A proeza do vilão que escapa sempre quando está quase a ser apanhado...e qual James Bond, que está sempre impecável no seu Armani…és de facto extraordinário e, digo-te, davas um herói de cinema.

Peço-te, muita sinceramente, que me avises com antecedência assim que, qual D.Sebastião de que tanto gostamos, pretendas regressar para salvar a nação deste Governo de gente tão fria e mal intencionada…é que, de imediato, terei mesmo que emigrar, não aguentaria ver outra vez o meu país entregue às tuas loucuras.
Mas também te digo que terias remissão se usasses a tua tremenda capacidade de influenciar para relembrar a tua gente que também assinaram o acordo com a troika…lembrar que o caminho fácil da insulta ainda destrói mais o país. Mas é claro que seria pedir-te imenso, pois se precisaste de inventar um curso, se compraste o conhecimento em vez de sofrer por ele, se desconheces o suor do trabalho...pois bem, estás condenado a não ter a seriedade que complementaria a tua imensa habilidade política.

Tenho mesmo pena...as tuas competências de negociação não podem ser usadas pelas equipas sérias que procuram soluções...tenho mesmo muita pena.

Enfim, deixa lá, não se pode ter tudo.

Espero que, no teu curso de filosofia, já tenhas aprendido a reflectir nas coisas, pelo menos com seriedade intelectual.

Adeus,

domingo, 4 de novembro de 2012

"Este país não é para velhos" II - Reflexão sobre o Estado Social.

(escrevi hoje sobre sobre os idosos e sobre a importância dos afectos...sinto ter que complementar essa reflexão, ainda hoje, com a emergência do Estado...Social; no final, entende-se porque separo as expressões)

Em tempos de "austeridade" e de "ajustamento", os políticos ressuscitaram a expressão de "Estado Social". Curioso. Nas décadas de "crescimento", plenas de auto-estradas, vias rápidas, estádios de futebol, plasmas e muito "wireless", "oh yeah" ... a expressão já tinha sido abandonada. Talvez já não fosse necessário pensar nisso.

Afinal, o "Estado Social" renasceu agora nos debates da nossa mui iletrada classe política.

Mas então...o que é isso?

É na realidade um extraordinário legado europeu, nascido do suor de muitos que assim trabalharam - literalmente com suor -, e nascido inevitavelmente da devastação das guerras.

Aprendeu-se nos séc. XIX e XX, neste velho continente, que o Estado deve ser...Social. Simplesmente isso. O verdadeiro progresso de uma sociedade que se orgulhe e se regozije de ser democrática.

E então, as obras-primas do Estado Social são: Saúde, Educação, Justiça.

Quase todos os outros ministérios perdem autonomia financeira para antes se dotarem de ...estratégia (? outra expressão em desuso...)
Se o Ensino Público promover hábitos de trabalho, exigência e espírito de iniciativa, o crescimento económico dependerá menos de subsídios ou da actividade do Estado.

Pagar impostos e saber que não faltam cuidados de saúde acessíveis sobretudo a crianças e idosos, que o ensino público promove competência e empreendedorismo, que o serviço de Justiça é eficaz e que os pequenos delitos têm consequências sem fazer crescer os irecuperáveis processos de insanidade social sem repressão...uma infeliz miragem. Afinal, com retrocesso em qualquer uma destas verdadeiras frentes de batalha...ficamos...em ambiente "wireless", mas muito mais pobres.

Chegámos a um lamentável ponto de viragem em que afinal...as três áreas fundamentais terão que ser superiormente pagas para que sejam plenamente asseguradas, apesar de tanta evolução nas vias de comunicação, apesar de tantos centros comerciais, apesar de tanta "net".
Afinal, a geração mais idosa, que trabalhou mais duramente que os filhos criados num ambiente mais simples e facilitado, vê-se agora em retrocesso financeiro.

O Estado não é uma entidade abstracta. Todos somos e fazemos parte Dele, um organismo vivo que se alimenta de todos para a todos chegar.
Nascemos com o direito de ter acesso à saúde e educação que são pagos com impostos. Contribuímos com estudo, trabalho e função social. Os impostos asseguram este círculo de serviços, desde crianças até idosos...e assim fazemos parte do Estado, numa contribuição recíproca e permanente de trabalho, impostos e direito à saúde, educação e justiça.

Afinal de contas, use-se apenas e só a expressão..."Estado". Devia ser autoexplicativo. Devia, com dignidade, significar "Estado Social". Quem acrescenta agora o "Social" terá eventualmente que rever se faz dignamente parte do "Estado".



"Este país não é para velhos"

...ouvimos muitas vezes: há demasiados velhos...e é um enorme problema...que chatice...
O melhor é manter esta secreta esperança em como nos havemos de safar da velhice.

"Velhos"! Eis a preciosa designação que teremos um dia, um carimbo inevitável (?).

Pelos vistos, este país não é para velhos.

Mas então, o facto de podermos envelhecer é ou não o produto do nosso progresso?
Querer viver mais e melhor tem sido ou não uma ambição? Que raio, é então estranho encarar o envelhecimento com preocupação, em vez de acolher a satisfação de vivermos num país que tem cuidado dessa condição...ou não?
Todos vamos envelhecer...ou não?

De pouco nos serve termos a mania que sabemos educar os nossos filhos, se nos recusamos a cuidar dos idosos da nossa família.
De pouco nos serve continuarmos a trabalhar por condições melhores se, quando chegarmos à idade da reforma, vamos sentir abandono...e vamos perguntar porque nos esforçámos tanto.

Qualquer dia, vamos sentir maior dificuldade em falar, talvez porque a vontade se perca. Mesmo que o raciocínio se mantenha, mesmo com a observação mais aperfeiçocada, a importância das palavras vai ser maior, vamos querer usá-las da melhor forma, e não nos vai apetecer gastá-las com quem nos despreza, não nos entende ou não tem tempo para nos ouvir.
Para quê tanto trabalho se, qualquer dia, vamos estar rodeados de impacientes que não querem acompanhar o nosso passo? E que vão praguejar pela nossa lentidão de reflexos, nos movimentos e nas palavras?
E então, vai haver o 1º dia em que vamos desistir...a menos que encontremos um objectivo para nos continuarmos a levantar, a sair de casa e a andar. E, invariavelmente, o objectivo que nos vai fazer mexer vai ser, algures, a força dos afectos. O carinho de alguém no café, na rua, no jardim, na igreja, vai-nos orientar os passos, e vamos querer retribuir um sorriso, vamos procurar onde poderemos ser úteis. Vamos querer receber o olá carinhoso da pessoa que nos cumprimenta, nas nossas rotinas.

Os idosos podem ensinar coisas fundamentais da vida que teimamos tantas vezes em ignorar em casa, na profissão, na forma como lidamos com percalços.
Podem ser avós formidáveis e cumprir uma função social que não é substituível.
Ou então, podem ter a energia dos sábios nas empresas...a experiência de vida que tempera os riscos desnecessários e que, tantas vezes, fazem falta a quem toma decisões.
Podem desempenhar actividades sociais para o que, quem trabalha plenamente, não tem tempo.
Ou então, podem simplesmente sossegar pela presença, pelo sorriso, pelo tempo que dedicam aos pequenos carinhos que faltam aos "pré-idosos".

Se este país não é para velhos...se não há nenhum país de velhos para onde possamos emigrar quando as forças nos faltarem...então de nada serve viver mais e melhor.

É um tema independente da "crise". Muito bem, é fundamental cuidar das reformas com dignidade. É fundamental que haja instituições com cuidados de saúde para o que os nossos filhos e ou amigos não tenham competência. Mas sem carinho, sem o tempo de alguém...de nada servirá o apoio social.

Cuidemos dos idosos na nossa família...abandone-se a expressão "velho"...velho é quem é incapaz de sentir afectos, qualquer que seja a idade.

Num país para velhos, também deve haver crises...mas muito menos profundas.