António Costa demonstra um medo profundo por eleições antecipadas. Porque sabe que foi recentemente sufragado apenas e só como Presidente de um Partido, e não como mentor de qualquer coligação com outros dois partidos. Porque sabe que os 3 partidos da oposição não conseguirão qualquer acordo comum, antes conseguindo algures acordos precários sobre medidas avulsas, numa lógica nunca tripartida.
O único factor que une os 3 partidos da oposição é a visceral vontade de derrubar o partido mais votado, é a inveja desses votos não dirigidos. E isso é claramente precário e ilegítimo para assaltar o poder. Porque a génese da democracia não é somar minorias, é antes o digno exercício de Oposição para que o partido mais votado exerça a gestão do seu mandato com as necessárias resistências.
António Costa revela uma cobardia de que não se suspeitava. Incapaz de assumir derrota e de protagonizar a Oposição, privilegia contínuas negociações esguias e perversas, a caminho de um abismo que o levará a ele e ao seu partido, à custa de demasiados riscos reputacionais do nosso país.
António Costa revela-se de um autismo social demasiadamente perigoso para si próprio...tem impulsos de ditador e diria tratar-se de um homem ainda produto do Estado Novo, como se ainda fazendo parte da memória colectiva. Vende ilusões a quem tem miragens de poder.
A maioria dos eleitores não quis o que está a acontecer.
A maiora dos eleitores assiste a este holocausto político com o civismo anti-violento que caracteriza a mansa atitude lusitana perante o caos.
Que a necessidade de maioria absoluta - qualquer que ela seja - configure apenas solução para o próximo ciclo político e não para os seguintes...porque a exigibilidade de maioria absoluta para exercer governação em democracia é um enorme retrocesso ao fantasma das ditaduras.
António Costa violou as boas práticas da nossa jovem democracia e deve ser erradicado. Sê-lo-à naturalmente...e porventura da mesma forma como se pretende impôr...Como merece que seja.
Este período de trevas da nossa política há-de-se resolver com eleições. Infelizmente com uma factura superior a pagar, que hoje não sabemos quantificar.
E ainda veremos um António Costa "irrevogavelmente" recuado para uma outra miragem de político que há-de inventar...
Precisamos do Partido Socialista regenerado, sem António Costa.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2015
domingo, 25 de outubro de 2015
Saudades da serenidade de Portugal
Quem viu um olhar seguro, um gesto brando
Uma suave e angélica excelência
Que em si está sempre as almas transformando
Que tivesse contra ela resistência?
(Camões in Lusíadas)
Serenidade.
É preciso tempo para curar tantas feridas abertas.
É tempo de evitar escalada de ódios irracionais entre aquilo a que teimam designar de "Direita" e "Esquerda", designações enferrujadas do tempo da Revolução Francesa. É tempo de discutir programas, de debater soluções e de não esquecer os nossos compromissos...não somos uma jangada de pedra...somos um país que faz parte de um colectivo que constrói há décadas um património de paz mundial. Foram necessárias duas Guerras Mundiais para entender como é fundamental assumir compromissos europeus.
É tempo de recuar estes ódios obsoletos...qual Estado Novo ainda em decomposição.
Lá virão depois os arrependimentos...de não se ter tido a inteligência de recuar, de repensar, de negociar.
(Como em futebol...que tempo este em que a rivalidade transcende o que é próprio do desporto...lá virão os recuos, os apertos de mão, um necessário apagar de memória.)
Nunca estivemos bipolarizados.
Se em política, só for possível governar em maioria absoluta, de que valeu lutar contra a ditadura? Não terem os políticos aprendido a sabedoria de governar em minoria e fazer uma oposição responsável, é de grande atraso cultural e afinal...um grande retrocesso na nossa maturidade democrática.
Fazer Oposição responsável deveria ser tão difícil quanto governar.
Não estamos a dar conta dos erros desta crispação inútil.
Pelos motivos que escrevi, entendo que esta escalada absurda de violência iniciou com a incapacidade de António Costa em assumir a adversidade da derrota. Pode recuar, com o mesmo engenho. Que faça melhor uso das suas habilidades tácticas...neste contexto veloz e complexo, é sempre tempo de corrigir trajectórias. Esse recuo havia de lhe conferir a dimensão de que são feitas as personalidades que vincam a História.
Tenho saudades de sentir a serenidade da nossa alma de portugueses.
E confio em que seja retomada.
Uma suave e angélica excelência
Que em si está sempre as almas transformando
Que tivesse contra ela resistência?
(Camões in Lusíadas)
Serenidade.
É preciso tempo para curar tantas feridas abertas.
É tempo de evitar escalada de ódios irracionais entre aquilo a que teimam designar de "Direita" e "Esquerda", designações enferrujadas do tempo da Revolução Francesa. É tempo de discutir programas, de debater soluções e de não esquecer os nossos compromissos...não somos uma jangada de pedra...somos um país que faz parte de um colectivo que constrói há décadas um património de paz mundial. Foram necessárias duas Guerras Mundiais para entender como é fundamental assumir compromissos europeus.
É tempo de recuar estes ódios obsoletos...qual Estado Novo ainda em decomposição.
Lá virão depois os arrependimentos...de não se ter tido a inteligência de recuar, de repensar, de negociar.
(Como em futebol...que tempo este em que a rivalidade transcende o que é próprio do desporto...lá virão os recuos, os apertos de mão, um necessário apagar de memória.)
Nunca estivemos bipolarizados.
Se em política, só for possível governar em maioria absoluta, de que valeu lutar contra a ditadura? Não terem os políticos aprendido a sabedoria de governar em minoria e fazer uma oposição responsável, é de grande atraso cultural e afinal...um grande retrocesso na nossa maturidade democrática.
Fazer Oposição responsável deveria ser tão difícil quanto governar.
Não estamos a dar conta dos erros desta crispação inútil.
Pelos motivos que escrevi, entendo que esta escalada absurda de violência iniciou com a incapacidade de António Costa em assumir a adversidade da derrota. Pode recuar, com o mesmo engenho. Que faça melhor uso das suas habilidades tácticas...neste contexto veloz e complexo, é sempre tempo de corrigir trajectórias. Esse recuo havia de lhe conferir a dimensão de que são feitas as personalidades que vincam a História.
Tenho saudades de sentir a serenidade da nossa alma de portugueses.
E confio em que seja retomada.
sábado, 24 de outubro de 2015
António Costa cairá no abismo que criou
Não tenho dúvidas sobre o título da minha reflexão.
Sobre António Costa:
1. Desrespeitou o recente sufrágio dos portugueses; acobardou-se no seu 2º lugar, incapaz de reconhecer que teve uma oportunidade histórica para vencer eleições no contexto mais duro desde que vivemos num regime democrático.
2. Usou de acordos precários e ainda totalmente desconhecidos - feitos de títulos fáceis e apelativos, como se os portugueses fossem destituídos de senso - com partidos de programas eleitorais profundamente diversos e opostos em vários temas; e assim se tornou refém de outros, que não o seu próprio partido, perdendo o comando das decisões.
3. Envergonhou a reputação do país, ressuscitou o medo e a insegurança; virou costas aos compromissos assinados pelo seu partido com os parceiros europeus, assim perdendo a força negocial para representar o país, a menos que use da arrogância desmiolada de um Syriza, com todas as repercussões negativas de que não será capaz de se desvincular.
4. Violentou os fundamentos da democracia...porque governar sem maioria absoluta deveria ser natural; trocou o lugar de forte Oposição pelo poder a qualquer preço.
5. Violentou o espaço de 1º Ministro.
7. Desrespeitou totalmente a decisão do Presidente da Republica que deveria ser constitucionalmente aceite, mesmo que discordando.
8. É desprovido de ética ao não aceitar que os deputados devem ter consciência, antes da disciplina de voto...se assim fosse, bastaria um deputado por partido.
9. Baniu da sua memória aquilo que o Presidente da República lembrou: em Portugal, os 2 partidos mais sufragados sempre se souberam entender a bem do país, e o PS governou com menos deputados que a 1ª força política actual, com o respeito democrático do PSD.
10. Rompeu com a harmonia e civismo na Assembleia da República, incendiando Ferro Rodrigues para um discurso de total cisão e provocação, num lugar que deveria ser de consensos...após uma respeitosa prestação de Assunção Esteves, com os parabéns de todas as forças partidárias...uma vergonha, senhor Ferro Rodrigues.
Por isto...António Costa criou um abismo no país, usurpou o poder, apunhalou mortalmente os fundamentos democráticos em que temos sabido viver.
Promete o que é impossível cumprir, a menos que use de contabilidade criativa que, algures, venha a ter que ser resolvida por outros.
António Costa não é de esquerda nem de direita, é um homem que quer poder.
Será vítima dos mesmos golpes baixos que usa...o seu brinquedo não deveria ser o país onde vivo e que amo profundamente.
Acabo com uma citação de Sun Tzu:
A vitória está reservada para aqueles que estão dispostos a pagar o seu preço.
O preço da sua aparente vitória, camarada António Costa, será a queda no profundo abismo que criou. E é porque isto é uma realidade, que não receio o futuro.
Sobre António Costa:
1. Desrespeitou o recente sufrágio dos portugueses; acobardou-se no seu 2º lugar, incapaz de reconhecer que teve uma oportunidade histórica para vencer eleições no contexto mais duro desde que vivemos num regime democrático.
2. Usou de acordos precários e ainda totalmente desconhecidos - feitos de títulos fáceis e apelativos, como se os portugueses fossem destituídos de senso - com partidos de programas eleitorais profundamente diversos e opostos em vários temas; e assim se tornou refém de outros, que não o seu próprio partido, perdendo o comando das decisões.
3. Envergonhou a reputação do país, ressuscitou o medo e a insegurança; virou costas aos compromissos assinados pelo seu partido com os parceiros europeus, assim perdendo a força negocial para representar o país, a menos que use da arrogância desmiolada de um Syriza, com todas as repercussões negativas de que não será capaz de se desvincular.
4. Violentou os fundamentos da democracia...porque governar sem maioria absoluta deveria ser natural; trocou o lugar de forte Oposição pelo poder a qualquer preço.
5. Violentou o espaço de 1º Ministro.
6. Fracturou o partido onde cresceu e que o elegeu na sequência de golpes baixos ao seu antecessor; fracturas que surgirão a seu tempo... desconfigurou o seu partido, por ora acenando com o fascínio do poder para todos, como se ninguém tivesse consciência, memória ou pensamento próprio.
8. É desprovido de ética ao não aceitar que os deputados devem ter consciência, antes da disciplina de voto...se assim fosse, bastaria um deputado por partido.
9. Baniu da sua memória aquilo que o Presidente da República lembrou: em Portugal, os 2 partidos mais sufragados sempre se souberam entender a bem do país, e o PS governou com menos deputados que a 1ª força política actual, com o respeito democrático do PSD.
10. Rompeu com a harmonia e civismo na Assembleia da República, incendiando Ferro Rodrigues para um discurso de total cisão e provocação, num lugar que deveria ser de consensos...após uma respeitosa prestação de Assunção Esteves, com os parabéns de todas as forças partidárias...uma vergonha, senhor Ferro Rodrigues.
Por isto...António Costa criou um abismo no país, usurpou o poder, apunhalou mortalmente os fundamentos democráticos em que temos sabido viver.
Promete o que é impossível cumprir, a menos que use de contabilidade criativa que, algures, venha a ter que ser resolvida por outros.
António Costa não é de esquerda nem de direita, é um homem que quer poder.
Será vítima dos mesmos golpes baixos que usa...o seu brinquedo não deveria ser o país onde vivo e que amo profundamente.
Acabo com uma citação de Sun Tzu:
A vitória está reservada para aqueles que estão dispostos a pagar o seu preço.
O preço da sua aparente vitória, camarada António Costa, será a queda no profundo abismo que criou. E é porque isto é uma realidade, que não receio o futuro.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Carta ao Camarada mais Camarada de todos
Camarada: não menospreze esta carta aparentemente demasiado informal e em jeito de paródia; não subestime, há sempre estratégias mais diabólicas do que aquilo que possa engendrar, sobretudo quando não admite os seus erros. Esteja atento aos conselhos da pessoa que lhe escreve assim:
Camarada,
Fez muito bem, pá: não é preciso ganhar as eleições. A democracia é liberdade, pá! Vale tudo!
Olhe, fique já 1º Ministro e Presidente da República, não vá o 2º eleito pôr-se com ideias de fazer a mesma golpada; deve estar omisso na Constituição, por isso, passa.
Quanto à Catarina Martins, porreiro, pá: já se acalmou quanto aos assuntos europeus, que fique Ministra dos Negócios Estrangeiros e passa-lhe de vez!
O Jerónimo, bom...esse é honesto...se calhar vem com a lengalenga do Estado Novo e lembra-se que é contra as ditaduras, e esta jogada parece coisa igual...mas diga-lhe que esta ditadura é das boas, feita com a malta, pá!
Isto até parece que é um golpe de Estado, mas não é: afinal, podemos juntar os votos da maneira que quisermos, assim como fazer puzzles. Voçê é mesmo esperto!
Olhe, mas ponha-se a pau com os do seu partido...há quem não lhe perdoe ter perdido as eleições, e pense que foi uma oportunidade desperdiçada e até histórica, com um contexto destes...'tá a ver, a malta agarra-se ao poder e não perdoa nada...podem-lhe fazer o mesmo, umas negociações e pimba, montam-lhe uma cilada assim com uma espécie de maioria negativa. Tenha lá cuidado...
Finalmente...se puder, arranje-me um empregozito...olhe que 'tou consigo!
Saudações, camarada!
Camarada,
Fez muito bem, pá: não é preciso ganhar as eleições. A democracia é liberdade, pá! Vale tudo!
Olhe, fique já 1º Ministro e Presidente da República, não vá o 2º eleito pôr-se com ideias de fazer a mesma golpada; deve estar omisso na Constituição, por isso, passa.
Quanto à Catarina Martins, porreiro, pá: já se acalmou quanto aos assuntos europeus, que fique Ministra dos Negócios Estrangeiros e passa-lhe de vez!
O Jerónimo, bom...esse é honesto...se calhar vem com a lengalenga do Estado Novo e lembra-se que é contra as ditaduras, e esta jogada parece coisa igual...mas diga-lhe que esta ditadura é das boas, feita com a malta, pá!
Isto até parece que é um golpe de Estado, mas não é: afinal, podemos juntar os votos da maneira que quisermos, assim como fazer puzzles. Voçê é mesmo esperto!
Olhe, mas ponha-se a pau com os do seu partido...há quem não lhe perdoe ter perdido as eleições, e pense que foi uma oportunidade desperdiçada e até histórica, com um contexto destes...'tá a ver, a malta agarra-se ao poder e não perdoa nada...podem-lhe fazer o mesmo, umas negociações e pimba, montam-lhe uma cilada assim com uma espécie de maioria negativa. Tenha lá cuidado...
Finalmente...se puder, arranje-me um empregozito...olhe que 'tou consigo!
Saudações, camarada!
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Sr.Costa: "O povo é quem mais ordena"!
Hoje, tive dificuldade em explicar a uma pessoa que não vive em Portugal, o que está a acontecer no nosso país. Não estranhou o facto de não haver maioria absoluta; as democracias maduras são feitas de entendimentos partidários, a bem de uma governação negociada e que evite os abusos possíveis de poder.
O que tive que explicar:
- o partido mais votado não tem que formar governo;
- o líder do 2º partido mais votado não reconhece essa derrota, nem pessoal, nem do partido, e acha-se com legitimidade democrática em vir a ser 1º Ministro...uma perversão digna dos mais loucos desígnios;
- mais, há quem se preste em esclarecer - com ar entendido e erudito - que isto pode ser constitucional pelo facto de se tratar de uma situação omissa, como senão fosse antes uma omissão por se tratar de uma situação anti-democrática. Extraordinário e ainda mais perverso raciocínio... As omissões são afinal perigosas por criarem espaços vazios para aproveitamento de fanáticos pelo poder.
Mas ainda, em crescente absurdo: o partido mais radical de esquerda - o Bloco de Esquerda -, que tanto infernizou a governação com a necessidade de renegociar a dívida soberana, afinal até disso abdica a bem da sua colaboração no Governo! Fabuloso...tamanha desonestidade intelectual não esperava de um partido que respeitava pela coerência. Os famosos que apregoam "o povo é quem mais ordena" esquecem-se das conquistas de Abril. A democracia foi conquistada para se submeter ao obscuro poder de quem não é maioritário.
O sr. Costa leu a vaidade dos 3º e 4ºs partidos e os previsíveis sacrifícios a bem da constituição de um Governo que derrube a força do que foi mais votado; acham-se com legitimidade para fazê-lo, qual "ditatura do proletariado" contra a "ditadura da burguesia"...permitam-me concluir: é mau demais para ser verdade e o próprio Marx abanaria a cabeça com tamanha perversão.
Portanto:
- os eleitores que votaram no partido vencedor são todos doidos e desprovidos da sabedoria dos que votaram nos outros partidos;
- os votos não são iguais, 1 voto no Partido Socialista vale mais que 1 voto no Partido da Coligação, são afinal eleitores mais qualificados, os outros que tenham paciência;
- os eleitores do PCP e do BE nem tinham que se ter incomodado em ir todos às urnas...visto que o 2º partido mais votado iria sempre recorrer a entendimentos com os 3º e 4ºs para ser 1º Ministro.
Vão agora os entendidos em análise política dizer que é bluff do sr. Costa, para forçar a Coligação a maiores cedências...não lhes passa pela cabeça que o sr. Costa gere mesmo a situação como um jogo de poker. Mesmo que venha a desviar-se afinal dos seus acordos de esquerda e virar-se para um pacto de regime, parece-me agora legítimo que o partido da Coligação entenda não haver condições mínimas de confiança para formar governo e forçar a única forma de assegurar estabilidade: maioria absoluta. É pena...porque as maiorias absolutas não são desejáveis.
E Passos Coelho, que tem desafiado as probabilidades, tem ainda que aceitar este exercício pela frente? não vejo porquê...se o 2º partido mais votado se acha com legitimidade para ser líder de governação, não vejo qual a legitimidade em levá-lo a sério para um pacto de regime. A menos que o líder mude, claro.
Sr. Costa: tem sorte com esta maioria de eleitores que não se vai manifestar, vai assistir silenciosamente ao seu circo de vaidades, conviver com nova subida de taxas de juro com penosas consequências para o nosso endividamento externo e demais impactos com que já convivemos.
(E não venha retorquir com o facto de não ser uma situação pioneira na Europa! Não nos vamos comparar com países com partidos europeístas e sem divergências fracturantes sobre compromissos externos...pare de usar retórica inútil!)
Tanto que gostaria de assistir a uma oposição responsável. É tão necessário que haja contrapesos, soluções diferenciadoras e uma permanente pressão para evitar os abusos das maiorias absolutas.
O tempo dirá; mas diria que António Costa está a traçar o seu próprio abismo. O feitiço vira-se contra o feiticeiro.
O Partido Socialista não merece este líder.
O que tive que explicar:
- o partido mais votado não tem que formar governo;
- o líder do 2º partido mais votado não reconhece essa derrota, nem pessoal, nem do partido, e acha-se com legitimidade democrática em vir a ser 1º Ministro...uma perversão digna dos mais loucos desígnios;
- mais, há quem se preste em esclarecer - com ar entendido e erudito - que isto pode ser constitucional pelo facto de se tratar de uma situação omissa, como senão fosse antes uma omissão por se tratar de uma situação anti-democrática. Extraordinário e ainda mais perverso raciocínio... As omissões são afinal perigosas por criarem espaços vazios para aproveitamento de fanáticos pelo poder.
Mas ainda, em crescente absurdo: o partido mais radical de esquerda - o Bloco de Esquerda -, que tanto infernizou a governação com a necessidade de renegociar a dívida soberana, afinal até disso abdica a bem da sua colaboração no Governo! Fabuloso...tamanha desonestidade intelectual não esperava de um partido que respeitava pela coerência. Os famosos que apregoam "o povo é quem mais ordena" esquecem-se das conquistas de Abril. A democracia foi conquistada para se submeter ao obscuro poder de quem não é maioritário.
O sr. Costa leu a vaidade dos 3º e 4ºs partidos e os previsíveis sacrifícios a bem da constituição de um Governo que derrube a força do que foi mais votado; acham-se com legitimidade para fazê-lo, qual "ditatura do proletariado" contra a "ditadura da burguesia"...permitam-me concluir: é mau demais para ser verdade e o próprio Marx abanaria a cabeça com tamanha perversão.
Portanto:
- os eleitores que votaram no partido vencedor são todos doidos e desprovidos da sabedoria dos que votaram nos outros partidos;
- os votos não são iguais, 1 voto no Partido Socialista vale mais que 1 voto no Partido da Coligação, são afinal eleitores mais qualificados, os outros que tenham paciência;
- os eleitores do PCP e do BE nem tinham que se ter incomodado em ir todos às urnas...visto que o 2º partido mais votado iria sempre recorrer a entendimentos com os 3º e 4ºs para ser 1º Ministro.
Vão agora os entendidos em análise política dizer que é bluff do sr. Costa, para forçar a Coligação a maiores cedências...não lhes passa pela cabeça que o sr. Costa gere mesmo a situação como um jogo de poker. Mesmo que venha a desviar-se afinal dos seus acordos de esquerda e virar-se para um pacto de regime, parece-me agora legítimo que o partido da Coligação entenda não haver condições mínimas de confiança para formar governo e forçar a única forma de assegurar estabilidade: maioria absoluta. É pena...porque as maiorias absolutas não são desejáveis.
E Passos Coelho, que tem desafiado as probabilidades, tem ainda que aceitar este exercício pela frente? não vejo porquê...se o 2º partido mais votado se acha com legitimidade para ser líder de governação, não vejo qual a legitimidade em levá-lo a sério para um pacto de regime. A menos que o líder mude, claro.
Sr. Costa: tem sorte com esta maioria de eleitores que não se vai manifestar, vai assistir silenciosamente ao seu circo de vaidades, conviver com nova subida de taxas de juro com penosas consequências para o nosso endividamento externo e demais impactos com que já convivemos.
(E não venha retorquir com o facto de não ser uma situação pioneira na Europa! Não nos vamos comparar com países com partidos europeístas e sem divergências fracturantes sobre compromissos externos...pare de usar retórica inútil!)
Tanto que gostaria de assistir a uma oposição responsável. É tão necessário que haja contrapesos, soluções diferenciadoras e uma permanente pressão para evitar os abusos das maiorias absolutas.
O tempo dirá; mas diria que António Costa está a traçar o seu próprio abismo. O feitiço vira-se contra o feiticeiro.
O Partido Socialista não merece este líder.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Legislativas em Portugal: um caso singular
(Começo por informar que - conforme já escrevi, algures - que tenho feito parte do eleitorado flutuante que, ora se reconhece numa minoria, ora admite a importância do "voto útil" em contextos críticos... porque "em tempo de guerra não se limpam armas").
Apesar da quase evidente falência do Estado...da necessidade de um resgate financeiro equivalente a cerca de metade do valor da produção do país...do ciclo vicioso de desemprego-quebra de natalidade-surto emigratório-quebra do consumo...do abrupto ajustamento ao menor poder de compra e ao "enorme" aumento de impostos...da difícil retoma económica em contexto de austeridade...dos nossos países de exportações em crise...da falência do enorme grupo Espírito Santo com uma armadilha de estilhaços ainda em contabilização crescente...da panóplia de greves absurdas com especial destaque para a vergonhosa greve de 10 dias da TAP...da constante mediatização de conflitos em quase todos os sectores...e tantos outros acontecimentos brutais que aconteceram nestes 4 anos, a coligação de governo voltou a ganhar. Um caso singular, único, por comparação a outros países em contextos equivalentes.
Mas eis que, afinal...os outros partidos sentem o obscuro poder de inviabilizar o governo. É absolutamente extraordinário mas infelizmente previsível...porque esta vitória deve-se, também, à ausência de contrapropostas credíveis.
Senhores dos partidos da oposição: leiam por favor os artigos internacionais de hoje que destacam a maturidade política do eleitorado português, num contexto tão difícil quanto o nosso. E respeitem essa vontade silenciosa da maioria...que se manifesta menos mediaticamente, mas com acção diária, com sacrifício, com exemplo, com "luta" para usar uma expressão que tanto usam em vão. Não esquecer a força do voluntariado social que tem vindo a ajudar as reais necessidades do aumento da pobreza...e em como essa força não é mediática, não se insubordina, não anarquiza, não viola o bom senso da tenacidade, não se ostenta nas aberturas dos noticiários.
Como é possível que leiam os resultados ao contrário...afinal, não deve governar o partido em quem os eleitores confiaram, mas sim a astúcia de acordos febris em torno do poder, como se a democracia fosse apenas e só um sistema de contagem de votos para esse efeito. Afinal, os partidos que mais se vangloriam da memória de "abril" - uma memória e património de todos os portugueses, em que me reconheço! - são capazes de desrespeitar a decisão do eleitorado, a bem dos seus interesses mesquinhos de contrariar o que a maioria votou...eles é que sabem do que o país precisa, e não o eleitorado. Afinal, o nossos sistema é uma oligarquia dos partidos menos votados...espantoso!
Em paralelo a este breve espanto político: confesso a minha admiração por Passos Coelho.
Aguentou...tudo e todos...as vozes dissidentes do seu partido...os contratempos do seu parceiro de coligação...os ataques pessoais...soube quebrar o que parecia ser um ciclo vicioso de dificuldades. Resistiu com tenacidade, não usou discursos inflamados e está longe da eloquência latina de manual de liderança, e até os nossos patéticos analistas políticos dizem que "perdeu" o 1º debate com o líder da oposição. Confessou-se um cidadão "imperfeito", não é ostensivo, não é provocador.
Afinal, foi a sua confiabilidade que venceu, contra todas as expectativas.
Um desafio à lei das probabilidades.
Se esta vitória já foi um milagre, é de uma grande desonestidade intelectual ler como derrota que o governo tenha perdido a maioria absoluta.
E se o 2º partido mais votado não tiver a mesma dignidade...se não souber dar os parabéns ao governo, se não autoavaliar os seus erros, se não souber dialogar e concluir pela necessidade de um verdadeiro PACTO DE REGIME...então teremos as bases do nosso sistema democrático seriamente comprometidas.
Vou acreditar que o PS cure as feridas - bem menores que as dos partidos da coligação no governo, desgastados e já com perdas pessoais esmagadoras - e se mobilize seriamente para soluções de compromisso. Não é tempo de capricho de egos. E o reconhecimento da força de quem ganha não é uma derrota, é um acto político de sentido de Estado. E, pelos vistos, o eleitorado português sabe reconhecer essa confiabilidade.
É tempo de testar a verdadeira maturidade do nosso sistema democrático: a negociação de compromissos entre adversários políticos, os consensos e as convergências fundamentais.
Apesar da quase evidente falência do Estado...da necessidade de um resgate financeiro equivalente a cerca de metade do valor da produção do país...do ciclo vicioso de desemprego-quebra de natalidade-surto emigratório-quebra do consumo...do abrupto ajustamento ao menor poder de compra e ao "enorme" aumento de impostos...da difícil retoma económica em contexto de austeridade...dos nossos países de exportações em crise...da falência do enorme grupo Espírito Santo com uma armadilha de estilhaços ainda em contabilização crescente...da panóplia de greves absurdas com especial destaque para a vergonhosa greve de 10 dias da TAP...da constante mediatização de conflitos em quase todos os sectores...e tantos outros acontecimentos brutais que aconteceram nestes 4 anos, a coligação de governo voltou a ganhar. Um caso singular, único, por comparação a outros países em contextos equivalentes.
Mas eis que, afinal...os outros partidos sentem o obscuro poder de inviabilizar o governo. É absolutamente extraordinário mas infelizmente previsível...porque esta vitória deve-se, também, à ausência de contrapropostas credíveis.
Senhores dos partidos da oposição: leiam por favor os artigos internacionais de hoje que destacam a maturidade política do eleitorado português, num contexto tão difícil quanto o nosso. E respeitem essa vontade silenciosa da maioria...que se manifesta menos mediaticamente, mas com acção diária, com sacrifício, com exemplo, com "luta" para usar uma expressão que tanto usam em vão. Não esquecer a força do voluntariado social que tem vindo a ajudar as reais necessidades do aumento da pobreza...e em como essa força não é mediática, não se insubordina, não anarquiza, não viola o bom senso da tenacidade, não se ostenta nas aberturas dos noticiários.
Como é possível que leiam os resultados ao contrário...afinal, não deve governar o partido em quem os eleitores confiaram, mas sim a astúcia de acordos febris em torno do poder, como se a democracia fosse apenas e só um sistema de contagem de votos para esse efeito. Afinal, os partidos que mais se vangloriam da memória de "abril" - uma memória e património de todos os portugueses, em que me reconheço! - são capazes de desrespeitar a decisão do eleitorado, a bem dos seus interesses mesquinhos de contrariar o que a maioria votou...eles é que sabem do que o país precisa, e não o eleitorado. Afinal, o nossos sistema é uma oligarquia dos partidos menos votados...espantoso!
Em paralelo a este breve espanto político: confesso a minha admiração por Passos Coelho.
Aguentou...tudo e todos...as vozes dissidentes do seu partido...os contratempos do seu parceiro de coligação...os ataques pessoais...soube quebrar o que parecia ser um ciclo vicioso de dificuldades. Resistiu com tenacidade, não usou discursos inflamados e está longe da eloquência latina de manual de liderança, e até os nossos patéticos analistas políticos dizem que "perdeu" o 1º debate com o líder da oposição. Confessou-se um cidadão "imperfeito", não é ostensivo, não é provocador.
Afinal, foi a sua confiabilidade que venceu, contra todas as expectativas.
Um desafio à lei das probabilidades.
Se esta vitória já foi um milagre, é de uma grande desonestidade intelectual ler como derrota que o governo tenha perdido a maioria absoluta.
E se o 2º partido mais votado não tiver a mesma dignidade...se não souber dar os parabéns ao governo, se não autoavaliar os seus erros, se não souber dialogar e concluir pela necessidade de um verdadeiro PACTO DE REGIME...então teremos as bases do nosso sistema democrático seriamente comprometidas.
Vou acreditar que o PS cure as feridas - bem menores que as dos partidos da coligação no governo, desgastados e já com perdas pessoais esmagadoras - e se mobilize seriamente para soluções de compromisso. Não é tempo de capricho de egos. E o reconhecimento da força de quem ganha não é uma derrota, é um acto político de sentido de Estado. E, pelos vistos, o eleitorado português sabe reconhecer essa confiabilidade.
É tempo de testar a verdadeira maturidade do nosso sistema democrático: a negociação de compromissos entre adversários políticos, os consensos e as convergências fundamentais.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
O dispensável referendo grego de 5 de julho
"Aquele que se empenha em resolver as dificuldades, resolve-as antes que elas surjam."
Sun Tzu
Não havia necessidade de pedir este referendo ao povo grego. O governo demitiu-se das suas responsabilidades, ao devolver a quem tão recentemente o legitimou, uma decisão para um acordo que foi incapaz de negociar. Traído pela sua incompetência, inabilidade e insanidade, refugia-se agora em quem nele confiou. Ou então, este descalabro negocial terá sido estratégico para demonstrar a impossibilidade de negociar com a Europa, servindo os loucos desígnios de "soberania" a troco da falência e do desrespeito pelos sacrifícios dos países ex-resgatados e de dimensão semelhante.
Que decisão de bom senso se espera de um povo desesperado, à beira do colapso? Quer o "sim" quer o "não" serão decisões desesperadas, insensatas e absurdas, não vão ajudar a esclarecer as partes negociais. O governo de Tsipras autodescredibilizou-se. O tempo só corre a favor de quem pretende efectivamente chegar a acordo.
Sr.Tsipras: governe, ou então, demita-se. Assuma-se.
Na realidade, diria que quase todos nós partilhamos os seus ideais de autonomia.
Mas a autonomia conquista-se, não se financia.
É evidente que, se este governo grego pretendesse manter o país no Euro, já teria avançado com um programa de reformas minimamente credível. Vão argumentar: "a dívida é insustentável"...não é argumento, também a nossa parece ser, mas o comportamento negocial permitiu reduzir os custos de financiamento externo. E é este facto que permite recuperar o "ciclo virtuoso" da confiança e, por conseguinte, do crescimento.
É evidente que caíram na armadilha que eles próprios construíram, por entre o permanente dilema entre a opinião pública pró-Euro e as fracturas eminentes na sua coligação. O governo grego é uma "colagem de peças" demasiado fracturantes e distantes politicamente...sem consensos visíveis para momentos delicados. Esperariam facilidades sem contrapartidas, com a permanente chantagem do seu peso político que advém das suas fronteiras com o espaço "não-Euro". Não obstante o reduzido peso económico na Europa...inacreditável, mas é o que parece evidente.
Em desespero, de nada valerá a conclusão do referendo.
Se ganhar um "sim", teremos uma forte probabilidade de o governo se demitir a poucos meses de ter sido eleito, pelo que recuaremos a uma obscura inexistência de consensos e a um perigoso ambiente de guerra civil; ou então, Tsipras teria a coragem de se manter, cercado pelos seus adversários de coligação e perseguido pela sua própria sombra, do seu sósia enfeitiçado pelo milagre do crescimento sem reformas.
Se ganhar o "não", aumenta a probabilidade de desagregação da Grécia do Euro; "desagregação" e não de "saída", que da "saída" ninguém sabe falar, tal é a complexidade dos impactos internos - brutal perda de valor da moeda e de aumento da dívida - e externos - nova crise de riscos soberanos.
Por isso, quer o "sim" quer o "não" seriam dispensáveis para esclarecer ambas as partes e podem potenciar riscos maiores que não estão a ser devidamente acautelados.
Acredito em como o xadrez político europeu considera como primeiríssimo cenário, manter a Grécia; e a reestruturação de dívida pudesse vir a ser corolário de um sério plano de reformas que a Grécia se propusesse implementar; e esse facto viesse depois a ser extensível aos países agora designados de "periféricos" e ex-resgatados, numa cadeia de negociações que permitiriam um novo ciclo europeu, em termos económicos e acordos políticos.
...
Enquanto isso, desconhecemos a dimensão do combate ao Estado Islâmico. Porventura, um combate silencioso, e por isso sem que consigamos avaliar a real eficácia. Resta-nos os patéticos media a enfatizar os residuais terroristas instruídos e ocidentais, como se de um exército instruído se tratasse.
Enquanto isso, aumenta o drama dos refugiados no Mediterrâneo.
Enquanto isso, em vários países africanos, as crianças têm como destino serem soldados e as mulheres têm como destino a violação e a vida sem valor.
Um holocausto brutal, de novo aos nossos pés.
Tudo se relaciona perigosamente, num "fio da navalha" que merece políticos de elevadíssima estatura.
...
O pós-referendo grego é totalmente imprevisível.
Certo é também, que é nos momentos dramáticos que surgem grandes soluções, que podem passar por grandes recuos.
Termino com a citação de Sun Tzu com que inicio...é que, quem pretende um acordo, não inicia uma guerra.
domingo, 19 de abril de 2015
Acção social - uma proposta fiscal
"É muito fácil enfraquecer e destruir. Os heróis são os que pacificam e constroem."
(Nelson Mandela)
Uma descrição do "d'antes"
Sou da geração em Portugal pós-25 de abril. Olho para trás e reconheço ter vivido um momento único da nossa História do séc.XX; vivemos pelo menos duas décadas de quase pleno emprego, de subsídios para o crescimento, a possibilidade de saúde e educação gratuitos...uma vertigem de felicidade.
Hoje, e mesmo com a noção de ter trabalhado imenso, não tive a noção do justo retorno; é preciso passar por contextos muito adversos para afinar essa noção de justiça.
Felicidade...esbarro neste conceito...felicidade e sucesso ?! O que é isso, afinal?
As respostas são imensas...julguei-as mais óbvias na "belle époque"...agora, menos óbvias, mas mais sólidas.
Coisas "d'agora"
A família desconfigurou-se no sentido em que a conhecemos; a modificação é difícil de qualificar. Temos simplesmente que aceitar as mudanças.
O trabalho...pois se todos temos a informação que queremos à velocidade de um touch...mas se ainda assim, mantemos na maioria dos casos uma rotina de escritório e de espaços físicos ... com excepção da indústria, não tenho dúvidas em como as empresas rentáveis têm um conceito de espaço/resultados completamente diferente daquele em se teima em trabalhar.
Ouço demasiadas queixas e nostalgias, consomem-me o bem-estar; seguramente não se queixa quem se adapta e entende que os cursos feitos há décadas ensinaram sobretudo a agilizar conhecimentos e quem se soube desformatar da profissão X ou Y...há que dar o salto individual de criar ruptura com o "mundozinho" em que julgámos permanecer até ao milagre da reforma.
Notas soltas
As pessoas que mais me marcaram até hoje não foram as publicamente mais brilhantes que conheci pessoalmente; com isto, não lhes tiro mérito, mas o que é certo é que as competências públicas não equivalem necessariamente a virtudes privadas. Para além dos afectos - que obviamente me marcaram mais vivamente - as pessoas mais vibrantes e que não esqueço são as que deram tempo aos outros, convivendo bem com a eventual falta de gratidão. Move-as outro alcance da realidade, uma noção íntima e grandiosa de sucesso. Admiro-as intensamente. E quanto mais vivo, mais me vêm à memória.
Vivemos claramente acima da média mundial. Não interessa se é abaixo de poucos a nível mundial; esse pensamento é um recuo na nossa consciência, apequena-nos, limita-nos os horizontes e o espaço do nosso bem-estar. Não me peçam estatísticas... encontram com demasiada facilidade na internet...confessem a preguiça da pesquisa...é que a resposta é óbvia e contraria o nosso conforto.
A acção social - benefício fiscal
Habitualmente, é necessário que ocorra um conjunto de circunstâncias para que uma pessoa se disponha a fazer voluntariado; mas é certo em como o suposto sacrifício anula-se com os ganhos:
Quanto às empresas: a minha opinião é certamente muito discutível, mas entendo que não têm que ter benefício fiscal directo com o facto de permitirem acção social aos colaboradores sem penalização; pelo contrário, devem antes propôr e repercutir esse facto na reputação e na sua imagem de mercado. Já existem benefícios associados aos donativos para fins sociais e ... o tempo dedicado à acção social é muito mais que um "enter" de uma transferência de dinheiro destinada a uma instituição social.
(vão-me contrapôr...deixem-me adivinhar:
- "...mas o Estado não deve ser o responsável por cuidar dos problemas de exclusão social que derivam do desemprego? "
Pois...mas é cada vez mais insuficiente por motivos que todos conhecemos e a que não devemos ser completamente alheios, sob pena de não merecermos viver acima da média mundial;
- "...mas eu é que vou contribuir para desempenhar uma função que é do Estado?"
Pois, mas todos fazemos parte do Estado; e se pago impostos, tenho direito a benefício se contribuir activamente para diminuir os efeitos da pobreza;
- "...mas se existe sobre-taxa de IRS, como é que há orçamento para benefício fiscal pela acção social?
Ou governantes ou a nossa oposição devem-se ocupar de fazer contas à poupança do Estado e fazerem as suas propostas. Mas consomem-se em discursos patéticos de ataques pessoais, política baixinha e vergonhosa.)
Sucesso? Sobre isso, tenho uma noção mais clara: sentir verdadeiramente que faço o que está ao meu alcance.
Falta-me, sinceramente, não ter medo de morrer. E, quando deixar de ter esse medo, vou se calhar entender o verdadeiro alcance da felicidade.
E assim termino como comecei, com a citação de Nelson Mandela:
"É muito fácil enfraquecer e destruir. Os heróis são os que pacificam e constroem"
(Nelson Mandela)
Uma descrição do "d'antes"
Sou da geração em Portugal pós-25 de abril. Olho para trás e reconheço ter vivido um momento único da nossa História do séc.XX; vivemos pelo menos duas décadas de quase pleno emprego, de subsídios para o crescimento, a possibilidade de saúde e educação gratuitos...uma vertigem de felicidade.
Hoje, e mesmo com a noção de ter trabalhado imenso, não tive a noção do justo retorno; é preciso passar por contextos muito adversos para afinar essa noção de justiça.
Felicidade...esbarro neste conceito...felicidade e sucesso ?! O que é isso, afinal?
As respostas são imensas...julguei-as mais óbvias na "belle époque"...agora, menos óbvias, mas mais sólidas.
Coisas "d'agora"
A família desconfigurou-se no sentido em que a conhecemos; a modificação é difícil de qualificar. Temos simplesmente que aceitar as mudanças.
O trabalho...pois se todos temos a informação que queremos à velocidade de um touch...mas se ainda assim, mantemos na maioria dos casos uma rotina de escritório e de espaços físicos ... com excepção da indústria, não tenho dúvidas em como as empresas rentáveis têm um conceito de espaço/resultados completamente diferente daquele em se teima em trabalhar.
Ouço demasiadas queixas e nostalgias, consomem-me o bem-estar; seguramente não se queixa quem se adapta e entende que os cursos feitos há décadas ensinaram sobretudo a agilizar conhecimentos e quem se soube desformatar da profissão X ou Y...há que dar o salto individual de criar ruptura com o "mundozinho" em que julgámos permanecer até ao milagre da reforma.
Notas soltas
As pessoas que mais me marcaram até hoje não foram as publicamente mais brilhantes que conheci pessoalmente; com isto, não lhes tiro mérito, mas o que é certo é que as competências públicas não equivalem necessariamente a virtudes privadas. Para além dos afectos - que obviamente me marcaram mais vivamente - as pessoas mais vibrantes e que não esqueço são as que deram tempo aos outros, convivendo bem com a eventual falta de gratidão. Move-as outro alcance da realidade, uma noção íntima e grandiosa de sucesso. Admiro-as intensamente. E quanto mais vivo, mais me vêm à memória.
Vivemos claramente acima da média mundial. Não interessa se é abaixo de poucos a nível mundial; esse pensamento é um recuo na nossa consciência, apequena-nos, limita-nos os horizontes e o espaço do nosso bem-estar. Não me peçam estatísticas... encontram com demasiada facilidade na internet...confessem a preguiça da pesquisa...é que a resposta é óbvia e contraria o nosso conforto.
A acção social - benefício fiscal
Habitualmente, é necessário que ocorra um conjunto de circunstâncias para que uma pessoa se disponha a fazer voluntariado; mas é certo em como o suposto sacrifício anula-se com os ganhos:
- Aumenta a auto-estima ao desvalorizar tudo o que parece pesar como problema, entende-se melhor a estreita fronteira para a fragilidade física ou emocional, aumenta a sensibilidade social e a noção da realidade;
- Aumenta o bem-estar no trabalho;
- Gere-se melhor o tempo e reganha-se disponibilidade para quem mais se estima;
- Os impactos nos outros - crianças, idosos, pessoas frágeis emocionalmente ou com dificuldades económicas - podem ser vistos como poupança de encargos para o Estado: ajuda à reinserção no mercado de trabalho, diminui o recurso a hospitais, melhora o aproveitamento escolar, contribui para corrigir os efeitos da pobreza, da exclusão social, da delinquência. Um milagroso esquema de compensações que permite a readaptação a contextos mais adversos.
Quanto às empresas: a minha opinião é certamente muito discutível, mas entendo que não têm que ter benefício fiscal directo com o facto de permitirem acção social aos colaboradores sem penalização; pelo contrário, devem antes propôr e repercutir esse facto na reputação e na sua imagem de mercado. Já existem benefícios associados aos donativos para fins sociais e ... o tempo dedicado à acção social é muito mais que um "enter" de uma transferência de dinheiro destinada a uma instituição social.
(vão-me contrapôr...deixem-me adivinhar:
- "...mas o Estado não deve ser o responsável por cuidar dos problemas de exclusão social que derivam do desemprego? "
Pois...mas é cada vez mais insuficiente por motivos que todos conhecemos e a que não devemos ser completamente alheios, sob pena de não merecermos viver acima da média mundial;
- "...mas eu é que vou contribuir para desempenhar uma função que é do Estado?"
Pois, mas todos fazemos parte do Estado; e se pago impostos, tenho direito a benefício se contribuir activamente para diminuir os efeitos da pobreza;
- "...mas se existe sobre-taxa de IRS, como é que há orçamento para benefício fiscal pela acção social?
Ou governantes ou a nossa oposição devem-se ocupar de fazer contas à poupança do Estado e fazerem as suas propostas. Mas consomem-se em discursos patéticos de ataques pessoais, política baixinha e vergonhosa.)
Epílogo
Felicidade? Um conceito demasiado abstracto, não sei o que é.Sucesso? Sobre isso, tenho uma noção mais clara: sentir verdadeiramente que faço o que está ao meu alcance.
Falta-me, sinceramente, não ter medo de morrer. E, quando deixar de ter esse medo, vou se calhar entender o verdadeiro alcance da felicidade.
E assim termino como comecei, com a citação de Nelson Mandela:
"É muito fácil enfraquecer e destruir. Os heróis são os que pacificam e constroem"
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Sobre a tese da "qualidade de tempo" com os filhos
Desde há alguns anos que ouço recorrentemente pais e mães defender com grande entusiasmo a importância da "qualidade de tempo" com os filhos, em contraponto à pouca quantidade de tempo que sentem ter.
Defendem esta receita milagrosa e tentam persuadir-se a si e aos outros, numa espécie de marketing de massas com o slogan "o tempo de que disponha para os seus filhos...use-o com qualidade!". E assim se resolve a culpa pela falta de tempo; assim nos protegemos das nossas lacunas, numa espécie de oráculo de que as gerações anteriores não se tenham lembrado.
Eu não sou certamente uma pessoa exemplar, tenho muitas dúvidas e estou em aperfeiçoamento constante do exercício da minha maternidade - com quebras -; portanto, não é por me arrogar a entendimentos superiores que venho descompôr esta receita dos nossos tempos, de que tanto me tentam convencer. É antes, um testemunho da minha experiência, das minhas tentativas, das minhas conquistas e dos meus fracassos.
Desmontando a tese...
I.
A espécie humana não evoluíu assim tanto que os jovens vivam a vida de 30 anos, aos 15. A informação permanente, o convite aos excessos como forma de protagonismo social e, claro, a falta de disponibilidade dos pais, obrigam os nossos filhos a viver numa aceleração de descobertas que, afinal de contas, a sua maturidade não acompanha. Têm as mesmas dúvidas e quebras que os pais tiveram na sua juventude; mas nós vivemos a juventude num mundo muito menos informado, menos vivo e menos social. O mundo actual é mais exigente para todos nós.
II.
Os filhos não param de crescer... ainda hoje, dou por mim a crescer quando sinto a serenidade dos meus pais diante de problemas complexos.
III.
Quando tenho plena disponibilidade de tempo como mãe, partilho a indolência do tempo ocupado com os silêncios próprios de cada um, no aconchego das nossas presenças; e então, o tempo desformata-se por forma a que ninguém tenha que falar comigo a hora certa, só porque é a hora em que eu estou em casa.
Com mais tempo, distendem-se os ritmos e perde-se a rotina de horários que limita e quase que complexa o momento dos segredos, das intimidades e das dúvidas. E então, dou por mim a pensar que, se teimar em ter pouco tempo, vou tentar corrigir com excesso de perguntas, de palavras demasiado dirigidas, a bem daquilo a que se pretende designar de "qualidade". Mas as palavras não são o amuleto adequado, pelo contrário: desperdiçam-se de forma desconexa, abusiva, ganhando vida própria para além do que é essencial. Diria que, em vez de palavras, é preciso simplesmente estar mais tempo, actuar com exemplo, deixar para lá da porta de casa o que nos magoou para reinventar um sorriso só pelo gosto de chegar a casa e de estar com os nossos filhos. E ter paciência, e ainda...na dúvida...ter paciência, num treino infinito de saber aguardar o momento certo para dizer as palavras adequadas.
Portanto...venha daí a quantidade de tempo com os nossos filhos.
Defendem esta receita milagrosa e tentam persuadir-se a si e aos outros, numa espécie de marketing de massas com o slogan "o tempo de que disponha para os seus filhos...use-o com qualidade!". E assim se resolve a culpa pela falta de tempo; assim nos protegemos das nossas lacunas, numa espécie de oráculo de que as gerações anteriores não se tenham lembrado.
Eu não sou certamente uma pessoa exemplar, tenho muitas dúvidas e estou em aperfeiçoamento constante do exercício da minha maternidade - com quebras -; portanto, não é por me arrogar a entendimentos superiores que venho descompôr esta receita dos nossos tempos, de que tanto me tentam convencer. É antes, um testemunho da minha experiência, das minhas tentativas, das minhas conquistas e dos meus fracassos.
Desmontando a tese...
I.
A espécie humana não evoluíu assim tanto que os jovens vivam a vida de 30 anos, aos 15. A informação permanente, o convite aos excessos como forma de protagonismo social e, claro, a falta de disponibilidade dos pais, obrigam os nossos filhos a viver numa aceleração de descobertas que, afinal de contas, a sua maturidade não acompanha. Têm as mesmas dúvidas e quebras que os pais tiveram na sua juventude; mas nós vivemos a juventude num mundo muito menos informado, menos vivo e menos social. O mundo actual é mais exigente para todos nós.
II.
Os filhos não param de crescer... ainda hoje, dou por mim a crescer quando sinto a serenidade dos meus pais diante de problemas complexos.
III.
Quando tenho plena disponibilidade de tempo como mãe, partilho a indolência do tempo ocupado com os silêncios próprios de cada um, no aconchego das nossas presenças; e então, o tempo desformata-se por forma a que ninguém tenha que falar comigo a hora certa, só porque é a hora em que eu estou em casa.
Com mais tempo, distendem-se os ritmos e perde-se a rotina de horários que limita e quase que complexa o momento dos segredos, das intimidades e das dúvidas. E então, dou por mim a pensar que, se teimar em ter pouco tempo, vou tentar corrigir com excesso de perguntas, de palavras demasiado dirigidas, a bem daquilo a que se pretende designar de "qualidade". Mas as palavras não são o amuleto adequado, pelo contrário: desperdiçam-se de forma desconexa, abusiva, ganhando vida própria para além do que é essencial. Diria que, em vez de palavras, é preciso simplesmente estar mais tempo, actuar com exemplo, deixar para lá da porta de casa o que nos magoou para reinventar um sorriso só pelo gosto de chegar a casa e de estar com os nossos filhos. E ter paciência, e ainda...na dúvida...ter paciência, num treino infinito de saber aguardar o momento certo para dizer as palavras adequadas.
Portanto...venha daí a quantidade de tempo com os nossos filhos.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Syriza...sonho ou abismo?
Esta sucessão de acontecimentos na Grécia é desafiadora.
O reverso do sonho, é o abismo...e por isso, tem que se negociar até à exaustão e...no limite...voltar a negociar. A bem do delicado xadrez político que confere paz à Europa.
Em jeito de início, alguns factos comparativos entre Portugal e Grécia:
. um regime democrático com a mesma idade;
. um PIB per capita equivalente, com população marginalmente inferior (10,5 milhões compara com 11 milhões na Grécia) e com um PIB inferior em cerca de 12% ao grego;
. um salário mínimo nacional inferior em 256€;
. menor dívida das Administrações Públicas em % do PIB: 125%, versus 157% na Grécia. 83,5% na UE 28.
Os números são autoexplicativos.
Não posso esquecer que:
I. Durante o período de intervenção pela troika, a Grécia beneficiou de um perdão de dívida obrigacionista superior à ajuda pela troika a Portugal...tratou-se da reestruturação em 2012 de emissão obrigacionista de cerca de 177mM €, com acordo dos credores privados quanto à troca por títulos de menor valor; significou na prática perdoar mais de 70% do valor nominal.
II. A Grécia faz fronteira com Turquia...Bulgária...Macedónia...Albânia.
O que também é autoexplicativo quanto à relevância geo-política para o espaço europeu.
E agora?
Temos Tsipras...fonética de nome de herói da mitologia grega.
Naturalmente, recolheu a simpatia dos países mais severamente castigados com políticas de austeridade.
Viveu o estado de graça de benefício da dúvida pelas forças políticas mais convencionais na generalidade dos países europeus, para além do eco natural nos partidos de esquerda, aparentemente feitos da mesma matéria-prima ideológica com que nasceu.
E eu...reservei expectativas positivas quanto ao possível aumento da força negocial do único poder que tem verdadeiramente enfrentado o desafio ao crescimento económico na Europa, em contraponto à rigidez alemã: BCE, pela mão de Mario Draghi.
Contudo, a recente sucessão de acontecimentos desde que Tsipras ganhou as eleições, resfriou o meu optimismo:
i) Quebrou com os protocolos, colocando acima do previsível entendimento da maioria que nele votou - dantes em partidos ideologicamente muito distantes - os seus caprichos pessoais, sem respeito pelo que terá motivado milhões de pessoas a conceder-lhe o privilégio do poder, sem o bom senso próprio de um homem de Estado que não renegue as raízes culturais do país onde nasceu e que nele confiou...uma atitude de ditador, de homem de rupturas e sem margem para negociações;
ii) Aliou-se ao partido ideologicamente oposto, sem hesitações, como se fosse possível assumir compromissos futuros de governação apenas com um estado de alma comum inicial, e tudo o resto destituído do mínimo de convergência ideológica...esvaziando a história da "direita" e da "esquerda" para uma espécie de relíquias políticas...que até poderia ser positivo se o Syriza não se intitulasse de "extrema esquerda".
Assim...inaugura-se um regime político europeu em que a democracia é apenas um veículo de poder para programas irreais em contextos de desespero. Uma espécie de...totalitarismo.
iii) Arrogou-se a ser “o” percursor de mudanças na Europa, ainda sem nada provar quanto à possibilidade de compatibilizar incumprimento com crescimento económico e ignorando o facto de os países fustigados pela austeridade serem também credores da dívida grega.
Uma extraordinária sequência de presunções, apoiando-se numa esperteza constrangedora que advém da delicada posição geográfica da Grécia…e se o "Podemos" em Espanha teima em lhe seguir os passos numa lógica de contágio que alisa lamentavelmente as óbvias diferenças de realidade, não me espantaria se também a Extrema Direita em França fizesse o mesmo.
O recuo parece-me inevitável...sob pena de isolar o seu país de qualquer financiamento ou de o deixar à merçê de potências totalitárias e anti-europeias...sob pena de negar quase tudo aquilo que prometeu.
Em jeito de contraponto: temos o ministro das Finanças,Yanis Varoufakis, com uma história de vida interessante, com obra feita desafiante. Desconcertante, culto e de horizontes aparentemente mais latos que o "menino" Tsipras. Veremos...
O reverso do sonho, é o abismo...e por isso, tem que se negociar até à exaustão e...no limite...voltar a negociar. A bem do delicado xadrez político que confere paz à Europa.
Em jeito de início, alguns factos comparativos entre Portugal e Grécia:
. um regime democrático com a mesma idade;
. um PIB per capita equivalente, com população marginalmente inferior (10,5 milhões compara com 11 milhões na Grécia) e com um PIB inferior em cerca de 12% ao grego;
. um salário mínimo nacional inferior em 256€;
. menor dívida das Administrações Públicas em % do PIB: 125%, versus 157% na Grécia. 83,5% na UE 28.
Os números são autoexplicativos.
Não posso esquecer que:
I. Durante o período de intervenção pela troika, a Grécia beneficiou de um perdão de dívida obrigacionista superior à ajuda pela troika a Portugal...tratou-se da reestruturação em 2012 de emissão obrigacionista de cerca de 177mM €, com acordo dos credores privados quanto à troca por títulos de menor valor; significou na prática perdoar mais de 70% do valor nominal.
II. A Grécia faz fronteira com Turquia...Bulgária...Macedónia...Albânia.
O que também é autoexplicativo quanto à relevância geo-política para o espaço europeu.
E agora?
Temos Tsipras...fonética de nome de herói da mitologia grega.
Naturalmente, recolheu a simpatia dos países mais severamente castigados com políticas de austeridade.
Viveu o estado de graça de benefício da dúvida pelas forças políticas mais convencionais na generalidade dos países europeus, para além do eco natural nos partidos de esquerda, aparentemente feitos da mesma matéria-prima ideológica com que nasceu.
E eu...reservei expectativas positivas quanto ao possível aumento da força negocial do único poder que tem verdadeiramente enfrentado o desafio ao crescimento económico na Europa, em contraponto à rigidez alemã: BCE, pela mão de Mario Draghi.
Contudo, a recente sucessão de acontecimentos desde que Tsipras ganhou as eleições, resfriou o meu optimismo:
i) Quebrou com os protocolos, colocando acima do previsível entendimento da maioria que nele votou - dantes em partidos ideologicamente muito distantes - os seus caprichos pessoais, sem respeito pelo que terá motivado milhões de pessoas a conceder-lhe o privilégio do poder, sem o bom senso próprio de um homem de Estado que não renegue as raízes culturais do país onde nasceu e que nele confiou...uma atitude de ditador, de homem de rupturas e sem margem para negociações;
ii) Aliou-se ao partido ideologicamente oposto, sem hesitações, como se fosse possível assumir compromissos futuros de governação apenas com um estado de alma comum inicial, e tudo o resto destituído do mínimo de convergência ideológica...esvaziando a história da "direita" e da "esquerda" para uma espécie de relíquias políticas...que até poderia ser positivo se o Syriza não se intitulasse de "extrema esquerda".
Assim...inaugura-se um regime político europeu em que a democracia é apenas um veículo de poder para programas irreais em contextos de desespero. Uma espécie de...totalitarismo.
iii) Arrogou-se a ser “o” percursor de mudanças na Europa, ainda sem nada provar quanto à possibilidade de compatibilizar incumprimento com crescimento económico e ignorando o facto de os países fustigados pela austeridade serem também credores da dívida grega.
Uma extraordinária sequência de presunções, apoiando-se numa esperteza constrangedora que advém da delicada posição geográfica da Grécia…e se o "Podemos" em Espanha teima em lhe seguir os passos numa lógica de contágio que alisa lamentavelmente as óbvias diferenças de realidade, não me espantaria se também a Extrema Direita em França fizesse o mesmo.
O recuo parece-me inevitável...sob pena de isolar o seu país de qualquer financiamento ou de o deixar à merçê de potências totalitárias e anti-europeias...sob pena de negar quase tudo aquilo que prometeu.
Em jeito de contraponto: temos o ministro das Finanças,Yanis Varoufakis, com uma história de vida interessante, com obra feita desafiante. Desconcertante, culto e de horizontes aparentemente mais latos que o "menino" Tsipras. Veremos...
Receio estarmos, ou à beira de um perigoso abismo em que a Grécia obtenha apoios extra-Europa para evitar o isolamento de uma bancarrota, ou então... que seja uma oportunidade para puxar pelo que a Europa tenha de melhor.
Do que não tenho dúvida é em como nós, europeus, partilhamos um "ADN" grego...não é só uma herança "filosófica" do passado, é uma peça fundamental para a paz na Europa.
Do que não tenho dúvida é em como nós, europeus, partilhamos um "ADN" grego...não é só uma herança "filosófica" do passado, é uma peça fundamental para a paz na Europa.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Je suis Charlie...?
A gravidade, a cobardia dos ataques, o horror da mensagem de um líder que legitima a barbaridade...são evidentes.
Mas, enquanto o "Je ne suis pas Charlie" dos dirigentes da Frente Nacional é uma afirmação tristemente previsível - que nova forma de totalitarismo é esta que surge na pátria da célebre revolução que mudou a história da Europa, sem qualquer problema de consciência? -, não sei se a afirmação "Je suis Charlie" deva ser assim tão imediata. É uma reacção à violência, não é uma solução. É verdade que a profunda solidariedade para com as vítimas não se responde com silêncio, mas também não se pode responder com provocação.
"Il faut penser"...
Na minha sociedade de sonho, em que todos tenham iguais oportunidades ou, os que não as tiverem, sejam verdadeiros heróis e saibam ultrapassar os naturais obstáculos que advêm das menores oportunidades ou das faltas de exemplos de cidadania nos meios em que crescem, conseguir-se-ía a plena integração e harmonia entre comunidades religiosamente diversas.
E...assim sendo...será que a liberdade de expressão é ilimitada? Sim, claro que sim, porque seríamos supostamente rodeados de pessoas com bom senso que...naturalmente...usariam dos limites próprios para saber actuar publicamente sem falta de respeito pela diversidade em que vivem.
E é aqui que reside o milagroso paradoxo de que as sociedades evoluídas se alimentam: a liberdade de expressão pode ser ilimitada porque os limites existem naturalmente por respeito. E é por isto que se viveria em harmonia.
Então...vamos por partes.
1. Qualquer acto de violência é completamente reprovável.
2. A violência não serve objectivos religiosos; é intrinsecamente oposta à fundamental doutrina de qualquer religião...mas porque move as pessoas de modo irracional, porque mexe com o transcendente, pode ser usada para massificar comportamentos, pode provocar distúrbios de escala.
3. O terrorismo não tem pátria. O terrorismo serve objectivos económicos, territoriais, e alimenta-se em culturas totalitárias onde, precisamente, a liberdade de expressão seja estranha, perigosa e, por isso, inexistente. As células terroristas alimentam-se de jovens frágeis, não necessariamente excluídos, mas simplesmente órfãos de educação ou órfãos de referências, sendo por isso facilmente movidos por desígnios supostamente transcendentes e, por isso, normalmente religiosos.
4. As artes são o motor silencioso, não violento e massificador com que se faz uma revolução...
veja-se a criatividade e pujança da cultura em Portugal antes do 25 de Abril - a importância dos escritores, do jornalismo, da música, do teatro, até das artes de rua como os graffiti - , veja-se em Espanha, veja-se em Itália, veja-se nos países da América Latina; depois da mudança, a suposta liberdade de expressão floresce em todo o seu esplendor, provocando os limites dantes demasiados...vem a prosperidade económica, os abusos, as corrupções e depois as crises com as inevitáveis consequências no desinvestimento cultural. Mas a força das artes e da cultura - agora simbolizada pela famosa caneta em reacção aos acontecimentos - não deve ser desperdiçada em vão.
Os acontecimentos nada têm a ver com religião ou com muçulmanos (e aqui, arrepio-me com o depoimento do irmão do polícia morto...apelando à não violência para com as comunidades muçulmanas); obriga-nos a entender que existe uma perigosíssima intelligenza terrorista que treina demasiados jovens para difundir o medo e provocar uma violência generalizada, massificando uma pretensa guerra cristã/muçulmana, a pretexto de um Deus que combate um Alá.
Há que combater o terrorismo com o mesmo silêncio e intelligenza com que atacam; sem alaridos, sem reportagens, sem divulgação. Com eficácia.
Há que cuidar dos efeitos demográficos que provocam desequilíbrios culturais que perturbam as harmonias sociais; assim como nos ecossistemas naturais há equilíbrios que cuidam do excesso de predadores.
"Je suis Charlie..."coloco-lhe uma interrogação e não um ponto final.
O que é evidente é que sou incapaz de afirmar: "Je ne suis pas Charlie"!
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