É o Papa. Ei-lo simples, forte, destemido, ao desafio dos tempos. Atrevido em opinião social, intrometido em política internacional, mas sobretudo...um homem controverso, que desafia a consciência individual, que condena os excessos, que abraça os excluídos, que inspira os mais fragilizados pela opulência dos podres poderes.
Francisco...preenche-me o imaginário que tanta vezes me foge, por entre a brutalidade dos dias. A pretexto da crise, vivemos um tempo de descuido pela dignidade do trabalho e, qual Titanic em afundamento, teimam em manter a orquestra tocar enquanto os outrora mais poderosos procuram salvar-se nos poucos barcos.
De um dia para o outro - literalmente - Francisco revolucionou os hábitos, provocou as rotinas, questionou as regras. De uma forma simples, rápida, eficaz. Curiosamente, foi eleito pelos seus pares a quem atribuímos as rugas próprias de quem não aceitaria a mudança desta forma tão abrupta...ou então, encerrará o mistério do quorum de homens evoluídos que entenderam a necessidade de fracturar, a urgência de sentir as vertigens da queda da ostentação. Não só na Igreja como instituição, mas nas instituições públicas, nos governos, nas próprias famílias, no chamado "mundo desenvolvido".
Primeiro: a recusa do medo. O atrevimento em desafiar os loucos que o quisessem abater a tiro, ou as seitas de interesses que o quisessem fazer desaparecer para de novo respirar a ordem anterior. E assim faz-nos relembrar que, se todos acabamos por morrer, então que se viva deixando marcas, teimando em semear em terreno bravio, recusando fazer parte de uma maioria acomodada.
Depois: a recusa de ostentação. O baixar do pedestal para olhar de frente o mundo, sem manias, sem superioridades pré-instaladas. O riso aberto sem medo do ridículo. O divino conseguido no terreno, sem barreiras. Ou não fosse ele jesuíta...recordando que é "fazendo-se à estrada" que se comunica com eficácia.
Este olhar de frente para o mundo actual permite-lhe abraçar todas as actuais formas de família, não porque estejam mais desfiguradas, mas porque é preciso aceitar o que mudou. Não interessam as polidas teses de doutoramento sobre as causas, não interessam as doutrinas de sociologia ou qualquer palestra com cocktail à mistura sobre o tema...interessa olhar de frente para o que existe, e aceitar é entender sem complexos "porquês?", é apenas o pegar nas coisas para tentar melhorar o que for possível.
Na realidade, julgo que Francisco cuida da sua imagem...a genuinidade da sua austeridade mistura-se com a sua estratégia. O seu exemplo cria respeito, cria poder para actuar de seguida. Para que a mensagem seja bem entendida, tem simplesmente que ser o primeiro a dar o exemplo. Simples...mas difícil. Não me lembro de ter visto isto em quase meio-século...
A Igreja Católica terá lido os tempos actuais da forma mais sinistra possível, e ainda bem que o fez. É preciso despertar o compromisso social, deixar de fazer caridade com dinheiro.
Na realidade, não há exemplos de austeridade em figuras de poder, quer indivíduos, quer Instituições, quer Governos.
Francisco é jovem na atitude e sábio nos desígnios.Vem mostrar que vale a pena correr o risco de desafiar o status quo se não lhe reconhecermos o exemplo.
Francisco é "a" grande figura da actualidade. Estou-lhe profundamente grata e sinto que só ainda começou uma longa e difícil jornada pela frente.
Lembro que no dia em que foi eleito, antes da sua primeira benção a todos como Papa, pediu que rezassem para que o abençoassem a ele. Pois bem...que esse momento tenha sido verdadeiramente divino.
Gostei muito!!! Partilho a admiração por esta grande figura dos dias de hoje (...bem necessitados de quem os "oriente" - os dias de hoje, claro!!).
ResponderExcluirLeonor Picão