Por favor...respeito pela dor de quem sentiu cada palavra desta canção, na sua época.
Por favor...preservemos a memória de uma geração que sonhou com o "nosso" Abril, incerto do seu resultado.
Por favor...não se misturem os tempos.
Por favor...não se repitam os erros.
É que a geração seguinte à que fez Abril acontecer, teve uma época dourada de crescimento, à conta de subsídios ininterruptos que criaram uma explosão de mais empregos do que trabalhos...Uma espécie de "belle époque" que poucas vezes existe na História da Humanidade.
Se hoje tivéssemos que inventar um hino para renovar a liberdade, teria necessariamente uma letra mais cosmopolita, mais longe da realidade dos campos alentejanos."Fraternidade" e "igualdade" não foram simples palavras, foram realidades conquistadas com silêncios, muito trabalho e muito sofrimento. E foram cantadas como que arrancadas do peito com a insolência de quem nada tem a perder.
Os tempos seguintes de abundância generalizada criaram antes "desigualdade" e desprezo por "fraternidade", num irónico vazio de valores que, afinal, sucedeu à conquista da liberdade.
Não...o hino dos tempos actuais tem que ser outro...não nos podemos apropriar do hino que foi penosamente feito por quem sonhava d'alto com verdadeiros ideais e verdadeiros desapegos.
Os tempos são duros para todos, é verdade. Mas vivemos num tempo em que se comunica de forma inteiramente livre e até impune para quem queira mentir em plena comunicação social...sim, as opiniões ecoam ilustremente, a salvo de qualquer punição. E é quem verdadeiramente mais sofre, é quem verdadeiramente passa fome, é verdadeiramente quem luta diariamente por reconquistar a sua dignidade com o seu trabalho...que não canta o "Grândola, vila morena".
É uma canção demasiado bela para ser assim apropriada por quem, apesar de tudo...vive em democracia.
A liberdade é um valor supremo pelo qual se faz uma guerra...para depois se desperdiçar por entre a avidez e os apegos de um "i-tudo", ainda por inventar pela genial Apple.
Vou teimar neste "acto de fé" que é acreditar em como, de novo, renovaremos forças para preservar a liberdade.
Austeridade e crescimento não são compatíveis...antes se sucedem, são consequência um do outro. Uma evidência histórica e repetível, mas não trágica.
Portugal está menos só que há um, dois anos atrás.
Preservo a memória desse belo hino "Grândola", nos meus silêncios de portuguesa convicta e orgulhosa do meu país...mas não o canto no tempo actual, porque a geração que me antecedeu e que o cantou com intenso vigor não teve a sorte do bom ciclo por que já passei.
Cabe-me fazer parte da geração de reconstrução do meu país. E se um dia tiver que entoar um hino nas ruas, será seguramente diferente.
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segunda-feira, 11 de março de 2013
domingo, 10 de março de 2013
Lincoln versus Argo
Mais um episódio da grandiosa epopeia dos Óscars de Holywood.
"Argo" é baseado numa história superior. Um resgate de extrema dificuldade que resultou graças á determinação de um homem e ao vertiginoso encaixe de coincidências felizes de decisões em cadeia que só acontecem quando a sorte ajuda à habilidade e coragem supremas.
Mas o filme não é de realização, interpretação ou produção superiores.
É simplesmente acima da média.
Curiosamente, o início conta a história do Irão de modo factual e desempoeirado para quem conclua tratar-se de um filme ao serviço do espírito imperalista americano...contudo, a memória é demasiado curta para relembrar os factos e acabamos com a íntima convicção da perversidade islâmica. Essa perversidade é, pelo menos em parte, e afinal de contas, um produto...americano.
Assim, em termos de juízo de valor, o filme é equilibrado, honesto, factual. Mas a sua história é demasiado forte para que nos lembremos disso, e ganhou uma dimensão épica pelo facto de retratar norte-americanos como vítimas.
"Lincoln" é baseado num homem superior.
Desengane-se quem espera ver cavalos e tiros de uma guerra civil e sangrenta, entre os maus do Sul e os bons do Norte.
Desengane-se quem pretenda concluir pelo humanismo de Lincoln na sua épica conquista do abolicionismo da escravatura, sem perversidade de meios.
Desenganemo-nos de lirimos: esse grande feito de grande humanismo foi a escalada de uma enorme montanha, sem garantias de avistar o cume, de planos maquiavélicos de moral duvidosa, entre comprar votos do partido da oposição e parelamente tentar negociar a paz, não fosse essa conquista de votos revelar-se ineficaz. E ainda, com oposição dos espíritos mais fundamentalistas do próprio partido.
"Lincoln" é também um filme superior. Actores, realização, produção, banda sonora, tudo se encaixa sem pretensiosismos de mostrar um homem bom com bons meios...mas com a coragem de mostrar os silêncios ou das suas omissões, ou das suas decisões aparecentemente contraditórias.
É de facto um filme superior, baseado numa história superior.
Mas é evidente que "Argo" reflecte, talvez até de forma surpreendente para o próprio realizador que simplesmente terá pretendido fazer homenagem a um homem corajoso, a inflamação dos espíritos imperialistas.
Acho que qualquer dos filmes é honesto intectualmente, é factual, não divide o mundo ao meio entre "bons" e "maus"; contudo, a leitura dos filmes pela maioria de opinião norte-americana terá estremecido com "Lincoln" e aliviado com "Argo".
"Lincoln" é um dos filmes da minha vida. E assim como o herói de Argo teve que abdicar da medalha na história real, também a equipa de Lincoln terá recebido "o" Óscar, numa cerimónia secreta, pelos verdadeiros apreciadores de bom cinema.
"Argo" é baseado numa história superior. Um resgate de extrema dificuldade que resultou graças á determinação de um homem e ao vertiginoso encaixe de coincidências felizes de decisões em cadeia que só acontecem quando a sorte ajuda à habilidade e coragem supremas.
Mas o filme não é de realização, interpretação ou produção superiores.
É simplesmente acima da média.
Curiosamente, o início conta a história do Irão de modo factual e desempoeirado para quem conclua tratar-se de um filme ao serviço do espírito imperalista americano...contudo, a memória é demasiado curta para relembrar os factos e acabamos com a íntima convicção da perversidade islâmica. Essa perversidade é, pelo menos em parte, e afinal de contas, um produto...americano.
Assim, em termos de juízo de valor, o filme é equilibrado, honesto, factual. Mas a sua história é demasiado forte para que nos lembremos disso, e ganhou uma dimensão épica pelo facto de retratar norte-americanos como vítimas.
"Lincoln" é baseado num homem superior.
Desengane-se quem espera ver cavalos e tiros de uma guerra civil e sangrenta, entre os maus do Sul e os bons do Norte.
Desengane-se quem pretenda concluir pelo humanismo de Lincoln na sua épica conquista do abolicionismo da escravatura, sem perversidade de meios.
Desenganemo-nos de lirimos: esse grande feito de grande humanismo foi a escalada de uma enorme montanha, sem garantias de avistar o cume, de planos maquiavélicos de moral duvidosa, entre comprar votos do partido da oposição e parelamente tentar negociar a paz, não fosse essa conquista de votos revelar-se ineficaz. E ainda, com oposição dos espíritos mais fundamentalistas do próprio partido.
"Lincoln" é também um filme superior. Actores, realização, produção, banda sonora, tudo se encaixa sem pretensiosismos de mostrar um homem bom com bons meios...mas com a coragem de mostrar os silêncios ou das suas omissões, ou das suas decisões aparecentemente contraditórias.
É de facto um filme superior, baseado numa história superior.
Mas é evidente que "Argo" reflecte, talvez até de forma surpreendente para o próprio realizador que simplesmente terá pretendido fazer homenagem a um homem corajoso, a inflamação dos espíritos imperialistas.
Acho que qualquer dos filmes é honesto intectualmente, é factual, não divide o mundo ao meio entre "bons" e "maus"; contudo, a leitura dos filmes pela maioria de opinião norte-americana terá estremecido com "Lincoln" e aliviado com "Argo".
"Lincoln" é um dos filmes da minha vida. E assim como o herói de Argo teve que abdicar da medalha na história real, também a equipa de Lincoln terá recebido "o" Óscar, numa cerimónia secreta, pelos verdadeiros apreciadores de bom cinema.
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