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domingo, 11 de janeiro de 2015
Je suis Charlie...?
A gravidade, a cobardia dos ataques, o horror da mensagem de um líder que legitima a barbaridade...são evidentes.
Mas, enquanto o "Je ne suis pas Charlie" dos dirigentes da Frente Nacional é uma afirmação tristemente previsível - que nova forma de totalitarismo é esta que surge na pátria da célebre revolução que mudou a história da Europa, sem qualquer problema de consciência? -, não sei se a afirmação "Je suis Charlie" deva ser assim tão imediata. É uma reacção à violência, não é uma solução. É verdade que a profunda solidariedade para com as vítimas não se responde com silêncio, mas também não se pode responder com provocação.
"Il faut penser"...
Na minha sociedade de sonho, em que todos tenham iguais oportunidades ou, os que não as tiverem, sejam verdadeiros heróis e saibam ultrapassar os naturais obstáculos que advêm das menores oportunidades ou das faltas de exemplos de cidadania nos meios em que crescem, conseguir-se-ía a plena integração e harmonia entre comunidades religiosamente diversas.
E...assim sendo...será que a liberdade de expressão é ilimitada? Sim, claro que sim, porque seríamos supostamente rodeados de pessoas com bom senso que...naturalmente...usariam dos limites próprios para saber actuar publicamente sem falta de respeito pela diversidade em que vivem.
E é aqui que reside o milagroso paradoxo de que as sociedades evoluídas se alimentam: a liberdade de expressão pode ser ilimitada porque os limites existem naturalmente por respeito. E é por isto que se viveria em harmonia.
Então...vamos por partes.
1. Qualquer acto de violência é completamente reprovável.
2. A violência não serve objectivos religiosos; é intrinsecamente oposta à fundamental doutrina de qualquer religião...mas porque move as pessoas de modo irracional, porque mexe com o transcendente, pode ser usada para massificar comportamentos, pode provocar distúrbios de escala.
3. O terrorismo não tem pátria. O terrorismo serve objectivos económicos, territoriais, e alimenta-se em culturas totalitárias onde, precisamente, a liberdade de expressão seja estranha, perigosa e, por isso, inexistente. As células terroristas alimentam-se de jovens frágeis, não necessariamente excluídos, mas simplesmente órfãos de educação ou órfãos de referências, sendo por isso facilmente movidos por desígnios supostamente transcendentes e, por isso, normalmente religiosos.
4. As artes são o motor silencioso, não violento e massificador com que se faz uma revolução...
veja-se a criatividade e pujança da cultura em Portugal antes do 25 de Abril - a importância dos escritores, do jornalismo, da música, do teatro, até das artes de rua como os graffiti - , veja-se em Espanha, veja-se em Itália, veja-se nos países da América Latina; depois da mudança, a suposta liberdade de expressão floresce em todo o seu esplendor, provocando os limites dantes demasiados...vem a prosperidade económica, os abusos, as corrupções e depois as crises com as inevitáveis consequências no desinvestimento cultural. Mas a força das artes e da cultura - agora simbolizada pela famosa caneta em reacção aos acontecimentos - não deve ser desperdiçada em vão.
Os acontecimentos nada têm a ver com religião ou com muçulmanos (e aqui, arrepio-me com o depoimento do irmão do polícia morto...apelando à não violência para com as comunidades muçulmanas); obriga-nos a entender que existe uma perigosíssima intelligenza terrorista que treina demasiados jovens para difundir o medo e provocar uma violência generalizada, massificando uma pretensa guerra cristã/muçulmana, a pretexto de um Deus que combate um Alá.
Há que combater o terrorismo com o mesmo silêncio e intelligenza com que atacam; sem alaridos, sem reportagens, sem divulgação. Com eficácia.
Há que cuidar dos efeitos demográficos que provocam desequilíbrios culturais que perturbam as harmonias sociais; assim como nos ecossistemas naturais há equilíbrios que cuidam do excesso de predadores.
"Je suis Charlie..."coloco-lhe uma interrogação e não um ponto final.
O que é evidente é que sou incapaz de afirmar: "Je ne suis pas Charlie"!
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