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sexta-feira, 31 de maio de 2013

27 Junho: greve à greve!

Sinto vergonha com esta marcação de greve geral para o dia dos exames nacionais dos nossos jovens dos 2º e 3ºs ciclos.
É uma atitude irresponsável, violenta, subversiva, sem respeito pelo trabalho dos nossos jovens.

Devia ser pedido parecer ao Tribunal Constitucional: o que deve ser privilegiado? O dever de fazer os exames nacionais ou o direito à greve geral nesse dia? E os exames nacionais são um dever ou um direito? Devem os alunos sentir um dever em fazer um exame nacional, ou sentir o direito pela educação?

E há ou não o direito de fazer greve à greve?

Pois é...que confusão de valores. O que vem primeiro, afinal? Em que tipo de sociedade vivemos? O trabalho é um direito ou...conquistam-se direitos depois do dever do trabalho?

...voltemos ao princípio...

A greve tem uma justificaçao histórica muito digna e legítima. Foi consequência da exploração fabril, da falta de direitos por entre muito suor de trabalho. Em honra dos que sofreram para criar o direito à greve, não pode ser usado com perversão ou banalização.
Imagino-me grevista num contexto de opressão e em que seja desrespeitada ou destratada. Agora... numa sociedade regida por uma Constituição e um regime laboral que prevê "os" direitos fundamentais"...o direito à greve tem que ser bem pensado.

Também estou escandalizada com a severidade dos tempos, sobretudo com o endurecimento da vida dos pensionistas; os meus pais são de uma geração em que o valor "trabalho" em vez do "mandar trabalhar" dignificou-os enormemente como pessoas de qualidade e integridade. E tenho-lhes um respeito profundo, admiro essa geração que viveu com respeito pelo "Estado", reconhecendo não a sua abstracção como se de um ente estranho que suga impostos se tratasse, mas antes fazendo parte de um extraordinário sistema de serviços públicos em que crescemos.

Este apelo à greve num dia fundamental para os nossos jovens, tem o mesmo grau de frieza com que os dirigentes políticos destrataram os nossos pensionistas.

Parece que os sindicalistas não têm filhos...e os políticos não têm pais...são igualmente "afamiliares", ou então uma estranha raça de agregados familiares unipessoais...

Esta greve atropela um património essencial do país: a educação. E, por isso, não merece o meu respeito. Vou antes exercer o meu direito de trabalhar no dia 27 de Junho.



sábado, 18 de maio de 2013

"We can do it"! Um património



Entrei no seu gabinete e fiquei...por entre a confusão de telas, cores, texturas e detalhes afins do seu enorme espaço de trabalho...fixada nesta tela. Ela percebeu e sorriu-me, com aquela cumplicidade feminina de quem sente a coragem e força de ser mulher. Continuámos a nossa troca de impressões e, julgo, não tenha tido a noção em como esta tela me tinha inquietado de forma tão poderosa.

Quando cheguei a casa, procurei e encontrei a sua História (sim, História com H maiúsculo, que histórias é coisa que nos sai à mesma velocidade com que nos entra):
- o cartaz foi criado em 1943 por J. Howard Miller, para a Westinghouse Electric Corporation, baseado numa fotografia de uma operária numa fábrica em Michigan, como imagem inspiradora para levantar o moral dos trabalhadores em plena 2ª Guerra Mundial;
- mais tarde, foi usado para promover o feminismo e outros temas políticos da década de 1980;
- foi capa da Smithsonian em 1994 e tornou-se um selo postal dos Estados Unidos;
- foi usado em 2008 como material de campanha para vários políticos norte-americanos e foi reformulado por artistas em 2010 para celebrar Julia Gillard, a primeira mulher a tornar-se primeiro-ministro da Austrália.

Que esta imagem me fique gravada na minha "História"...no sentido em que não devo esquecer e me deve colorir o fundo do que sou feita.

Não só pelo facto de ser mulher e de gostar dessa condição. Mas também porque me sugere várias ideias de força:
- "to do", o "fazer"... o "arregaçar mangas", o não orientar trabalho sem a experiência de o saber fazer; é o meu património, o principal legado ao meu filho, e que ele saiba cuidar durante toda a sua vida;
- "we can", a alquimia; o "acreditar" que parece simples mas não é, só é chamado aos nossos ânimos quando nos parece impossível ultrapassar o que quer que seja. E...vamos lá ser francos...só é possivel quando sentimos que não há afinal nada a perder, com a coragem do desapego pelo que se tem;
- "it" ... exactamente "aquilo", o que tem que ser feito, sem conseguir vislumbrar o que se segue, sem supôr que a etapa seguinte virá por acréscimo, sem "to do" ou sem "we can".

São três conceitos muito simples, parecem básicos, estupidamente comuns. Mas são o ânimo do dia a dia, da vida e o que fará os nossos filhos inspirar-se e não vacilar nas dificuldades.

Um legado cultural que perdemos no ADN de portugueses em Portugal, mas que sabemos usar tão bem além-fronteiras.
Mas sobretudo, um estado individual de alma, uma religião de vida.
Um acto de fé.
"O" património. Porque desta vida não levamos nada, deixamos ficar simplesmente as nossas Boas Memórias, a nossa história ou "História" consoante tenhamos ou não sido capazes de viver simplesmente no reinado de "We Can Do It!".





sexta-feira, 3 de maio de 2013

A minha responsabilidade pela crise



PRÓLOGO - EM JEITO DE COMÉDIA

Pensando bem...tenho a minha quota-parte de responsabilidade por este contexto a que todos designamos de "crise", pelo que, aqui ficam as minhas desculpas pelos seguintes factos:

Pelas poucas vezes em que entrei numa loja de chineses para comprar quinquilharias e pequenas utilidades; de certeza que terei provocado uma qualquer redução de vendas a comerciantes portugueses, mesmo que nada tenham produzido e vendessem mais caro os mesmos produtos comprados, também eles, a chineses.

Pelas vezes em que andei por estradas secundárias em vez de pagar as SCUT's assim não ajudando o Estado a recolher as suas justas receitas pelo endividamento que assumiu, mas a pagar pelos governantes que se seguissem.

Pelas vezes em que não pedi facturas pelos cafés que tomei, deverá ter sido seguramente equivalente a um valor de imposto que pagasse um almocito com direito a sobremesa.

Pelas vezes em que devia ter separado devidamente o lixo, desconfio bem que por cada vez que misturei plástico com biodegradável, devo ter diminuído os justos lucros de quem investiu no sector de resíduos ou de quem recicle plásticos assim reduzindo custos e mantendo preço de venda.

Pelas vezes em que critiquei os políticos em vez de investir em colar cartazes e prosseguir a gloriosa carreira até ser adjunta de uma qualquer Secretaria de Estado e aí sim, dar valor às duras omissões que teria que aprender a suportar para bem governar a nação.

Pelas vezes em que adoeci e não devia, visto que terei contribuído para o congestionamento dos serviços de urgência e deverei trabalhar até aos 90 e tal anos para cumprir com a minha quota-parte no défice do Estado.

! eheheh!

EPÍLOGO - EM JEITO DE VERDADE

...mas tenho seguramente quota-parte de responsabilidade em outros assuntos.

Pelas vezes em que não reparei se a fruta era portuguesa e, estupidamente, comprei maçã "Royal-gala" francesa ou uvas do Chile;

Pelas vezes em que não reclamei nas lojas com a ausência de etiquetas sem "made in Portugal";

Pelas vezes em que tive preguiça em confirmar a origem dos produtos e em que pudesse tantas e tantas vezes ter recusado produtos feitos em países onde não há qualquer legislação laboral nem ambiental;

Pelas vezes em que me dispus em falar línguas estrangeiras, admitindo a dificuldade do português, apesar de muitos ingleses, espanhóis, franceses, nada terem a opôr à aprendizagem da nossa língua que afinal, é o nosso legado cultural mais óbvio;

Pelas vezes em que liguei o computador em vez de pegar num livro,

Pelas vezes em que gastei água desnecessariamente, sem olhar à poupança de um recurso que é escasso em tantos países;

Pelas vezes em que deitei fora restos de comida;

Pelas vezes em que devia ter sacrificado mais vezes o meu olhar a quem, de facto, precisa de ajuda e do meu tempo.

E por tantas outras coisas por que, afinal, teria valido a pena parar e antes continuei, empurrada pela velocidade dos tempos abundantes e fartos de recursos.

EM JEITO DE CONCLUSÃO

Vivemos tempos muito severos mas sem a esperaça anulada que as gerações dos tempos de guerra terão sentido, com a morte à espreita.

A crise que sentimos transcende então, largamente, a perda de valor económico.