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domingo, 29 de dezembro de 2013

A propósito da "crise" ... Malala Yousufzai

"Uma criança, um professor, um lápis, uma caneta: podem mudar o mundo."
Dito pela jovem paquistanesa de 16 anos, no seu discurso nas Nações Unidas.

Para nós, portugueses e europeus, parece básico, banal, e, inconscientemente, paramos em apenas um minuto de consternação, movidos pela imagem da menina baleada a caminho da escola. Felizmente ultrapassámos essa fase de civilização em que a ida à escola por rapazes e raparigas faz parte do nosso crescimento. É simplesmente tão normal que deixámos de valorizar. Esquecemo-nos da nobreza desse direito, em linha com o da liberdade de expressão e de igualdade de sexos. Assim crescemos, assim vivemos, sem dar conta. Embriagados de múltiplos outros direitos, num processo iterativo contínuo e exaustivo, sem parar, até que alguém nos empregue, alguém nos trate, alguém e sempre alguém cuide de nós.

Parece tudo simples, imediato.Vivemos em crise de muitas coisas e raramente ouço falar da crise mais profunda que sinto vivermos: a falta de educação.
Desde a falta de educação como cidadão até à falta de educação como pessoa social e passando pela falta de educação escolar ou instrução.
Educação civil: sabermos que fazemos parte de uma comunidade e que devemos manifestar esse compromisso, sempre. Desde o comportamento num espaço publico até à participação em actividades sociais comunitárias.
Educação como pessoa: termos o exemplo de trabalho, coragem e dignidade dos nossos familiares mais próximos. Termos o exemplo na nossa organização social e empresarial em como não é por termos aliados políticos ou por fazermos parte de alguma seita ou grupo de interesses que teremos sucesso profissional.
Educação escolar: o conhecimento com gosto, o exemplo dos professores como se de "missionários" se tratassem. Com satisfação, com dedicação, com intenso e profundo respeito pelo conhecimento.

Vivemos esta enorme e profunda crise de educação a todos os níveis.
Muitas crianças sentem a instrução como obrigação, não se sabem comportar socialmente, crescem com a ilusão de facilidade em tudo, até na sua vida de adulto. Desaprendem a lidar com percalços, com a palavra "não".

A frase de Malala não é assim tão simples. É antes, um renascimento de valores para os senhores da civilização "ocidental" a que pertencemos. É uma novidade que quase desaprendemos.

Na nossa Europa, destratamos a educação. E é aqui que se inicia uma desarticulação entre pessoas, famílias, empresas, governos. Enfrentar a educação como a área fundamental de investimento assegura, a prazo, a sustentabilidade e a harmonia social, e a ferramenta-base para o crescimento económico.
A estafada noção de "empreendedorismo" seria facilmente entendida se tivéssemos dado mais atenção à instrução escolar, à forma como acedemos á vida profissional, ao que é valorizado nas empresas, e ao tempo que dedicamos à vida comunitária.

Malala merece uma enorme pausa, quase uma oração. E uma reflexão profunda de todos: escolas, associações de pais, dirigentes políticos a todos os níveis. Educação como área essencial de investimento.  Alteração de critérios de produtividade nas empresas. Sociedade com mais tempo para a família e para a vida comunitária nas áreas em que cada um se sinta mais vocacionado.
Sinto que, afinal de contas, estamos num tempo de civilização anterior ao país de Malala: a falta de noção das coisas, o desperdício como forma de vida.
Temos o essencial por reaprender, na nossa Europa.