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sábado, 8 de fevereiro de 2014

A salvação de Miró pela "jangada de pedra"

Sim, isso mesmo mesmo. Eu, portuguesa, sinto-me verdadeiramente numa "jangada de pedra" - um baptismo de Saramago -, perante esta muy ilustre novela das 85 obras do muy ilustre pintor catalão.
A nossa História é uma espécie de colectânea de "virtudes alheias, vícios próprios", que nos impede de crescer. E depois temos um "Museu da Língua Portuguesa" em...São Paulo. Isto engrandece-nos mas apenas e só quando feito... fora do país.

Gosto imenso de Miró, e o seu valor é inquestionável, imenso, único.
Mas...
...não dispondo obviamente do detalhe da informação deste processo (e quem tem??), é-me evidente a hipocrisia de criticar a decisão de venda. Mais: o que me parece um acto de gestão irreflectido, inábil e precipitado é que a venda seja feita "por atacado".

O resgate do BPN é um tremendo imposto pago por todos. O alheamento das instâncias de supervisão permitiu "alimentar o monstro"; tivemos depois que o "engolir", numa digestão permanente e diária de impostos. Por isso...a venda de quadros de um artista não português não me parece de todo...ruinosa para o património.

Parece-me muito mais complexo e questionável, assistir à necessidade (?) de venda de capital ou dependência internacional de infrasestruturas estratégicas ao país (energia, gás...).

Entre ficar heroicamente com a colecção Miro ou diminuir ainda mais a dotação orçamental para a cultura...
Entre salvar Miró ou descurar ainda mais os artistas portugueses...

Gerir é difícil, um equilibrismo permanente e frágil entre opções a tomar perante recursos escassos.

Temos então as intriguices políticas ao rubro num contexto de eleições europeias à vista...temos agora a nossa Oposição muy entendida em cultura e um Governo teimosamente impossibilitado de recuar. Ambas as partes movidas por estratégiazinha política, por intenção de guerra, por pressão partidária.

Gosto muito de Miró, mas gostava de ver a nossa Oposição mais ocupada em salvar o património português em vias de abandono.

E com estas orgias retóricas, a ver se não caminhamos para extremismos partidários, tal como França caminha...um abismo horrível a que não gostaria de assistir no meu país.

Joan Miró não merecia estes falsos profetas da cultura no país. Que esteja com quem pode cuidar dignamente da Sua obra.

Os Excluídos? - um Exemplo

Acabei de ver uma notícia na SIC Notícias que me provocou uma enorme Pausa. Simplesmente isto: uma mulher, Celeste Lobo, com cancro e com o Rendimento Social de Inserção, foi viver para Pampilhosa da Serra e dedicou-se a tratar de animais visivelmente abandonados e em vias de abate. Em condições totalmente precárias de saúde e de alojamento, passou a dedicar-se inteiramente aos animais e a conseguir a adopção de futuros donos através de redes sociais.

Fui pesquisar à Internet e encontrei múltiplas referências, incluindo o seu blog; ei-lo e uma publicação que seleccionei:

http://celestelobo007.blogspot.pt/2013/02/solidariedade-apelo-solidariedade.html

Desconheço a história de vida da Celeste e, sinceramente, não é de todo relevante. O passado de cada um é um santuário a respeitar.O que me interessa são as boas práticas.
A sua luta pela falta de saúde e pela falta de emprego não foi a opção por sem-abrigo, não foi a "caridadezinha", não foi a entrega a práticas criminosas, não foi a revolta com tudo e com todos. Foi a entrega a uma causa em que acredita. E assim combate a solidão, assim silenciará as suas revoltas.

Apostou num "Euromilhões" de afectos.

Registo também que a SIC tem vindo a contar cada vez mais histórias positivas, por contraponto de notícias escabrosas e trágicas. Que aumentem ainda muito mais o recurso a reportagens de BOAS históricas; assim iluminam o dia-a-dia de muitas pessoas sós, assim reeducam, assim cumprem uma função social de que os media deviam ser punidos por se alhear.

Há uma quantidade crescente de desilusões e de sérias dificuldades de muitas pessoas, no dia-a-dia. É transversal a todos e aqui, não vejo propriamente uma fronteira entre essa primária noção de ricos e de pobres. O que é que define um "rico"? A partir de que montante de bens? A partir de que saldo positivo entre liquidez e dívidas? A partir de que hectares de propriedade ou de que áreas de imóveis? Com que marcas de vestuário, de relógios ou de carros?
Pois...não se sabe.

O que é relevante é que cada um de nós tem o seu caminho, e deve encontrar a sua estratégia de vida, sem cair num poço fundo de revolta, de desilusão, sem optar pela "inércia" mental de deixar de ter esperança.

Há excluídos sociais que ensinam os menos pobres (os mais remediados, os mais ricos? não sei bem definir) a manter a "guarda", a não cair, a viver com dignidade.

Celeste Lobo é um Exemplo. Estou grata pela descoberta de hoje.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Hannah Arendt" - obrigatório ver e conhecer

Vi hoje este filme e fiquei absolutamente...K.O.
Em comoção profunda de pensamento. Num estado de abstracção que só acontece quando despertamos por completo das rotinas.

Aqui ficam alguns apontamentos que me arrepiaram, e aqui vão com a genuinidade das emoções imediatas no momento de pós-filme. Decerto que amanhã faria com outro pormenor...mas valem os primeiros momentos pelo seu valor emocional que, afinal de contas, é o que ficará firmemente mais gravado.

Um primeiro destaque para a genuína independência de pensamento. Hannah Arendt, judia alemã, fez a cobertura do julgamento de um nazi sem transmitir qualquer laço judeu ou alemão. Foi apátrida. Não interessa se o fez por ter sofrido em ambas as condições ao ponto de não se comover com qualquer uma das pátrias; quase diria que isso é um problema menor. A motivação não é o fundamental. O que é essencial destacar é a profundeza de análise num julgamento, pela atenção ao conteúdo das respostas do julgado, e à observação da forma como o fez. Para concluir pela "banalidade do mal", no sentido em que foi o"não pensamento" daquele homem que o fez ser, apenas e só, mais um fiel funcionário de regras. Um incapaz de contradizer a maioria, mais um burocrata ao serviço da ideologia dominante.

Com esta análise, Hannah Arendt pareceu proteger os alemães, apenas e só por não atacar o nazi julgado pelo horror das consequências dos seus actos (conduzir judeus para comboios a caminho de campos de concentração) ou simplesmente por não aproveitar o contexto para defender a honra dos judeus.
Mais...a sua análise estendeu a teia de crueldade aos não alemães que cooperaram com o regime, e aqui, leia-se os silêncios, a incapacidade de contra-organização ao regime, a cobardia, a propagação do medo. Fê-lo, ela própria, sem complexos, sem medos, sem cobardia, em oposição à "banalidade" da opinião comum.

Actuou como pensadora, escritora, o que quisessem apelidá-la, por encomenda de um jornal americano que dela esperaria, obviamente, um trabalho jornalístico de excelência e supostamente sanguinário contra o regime nazi.
Fez o seu trabalho sem qualquer compromisso, independentemente do gosto dos media ou dos próprios amigos.

Tudo isto comoveu-me profundamente.

Reagir com silêncio perante a corrupção é, afinal, contribuir para o seu engrandecimento.
Encolher os ombros em vez de fazer o que está ao nosso alcance é, afinal, cumprir ordens superiores ou imitar a maioria...em analogia ao caso deste filme, é levar alguém para um comboio de destino incerto...

A acomodação (a escolha do "não pensamento"), amplia a génese do mal. Eu sei que é aterrador reconhecê-lo, mas é ... verdade.

Filosofia não devia ser coisa do passado e acredito que há-de brevemente ressurgir, na total ausência de pensamento genuinamente independente, em que vivemos.