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domingo, 4 de novembro de 2012

"Este país não é para velhos"

...ouvimos muitas vezes: há demasiados velhos...e é um enorme problema...que chatice...
O melhor é manter esta secreta esperança em como nos havemos de safar da velhice.

"Velhos"! Eis a preciosa designação que teremos um dia, um carimbo inevitável (?).

Pelos vistos, este país não é para velhos.

Mas então, o facto de podermos envelhecer é ou não o produto do nosso progresso?
Querer viver mais e melhor tem sido ou não uma ambição? Que raio, é então estranho encarar o envelhecimento com preocupação, em vez de acolher a satisfação de vivermos num país que tem cuidado dessa condição...ou não?
Todos vamos envelhecer...ou não?

De pouco nos serve termos a mania que sabemos educar os nossos filhos, se nos recusamos a cuidar dos idosos da nossa família.
De pouco nos serve continuarmos a trabalhar por condições melhores se, quando chegarmos à idade da reforma, vamos sentir abandono...e vamos perguntar porque nos esforçámos tanto.

Qualquer dia, vamos sentir maior dificuldade em falar, talvez porque a vontade se perca. Mesmo que o raciocínio se mantenha, mesmo com a observação mais aperfeiçocada, a importância das palavras vai ser maior, vamos querer usá-las da melhor forma, e não nos vai apetecer gastá-las com quem nos despreza, não nos entende ou não tem tempo para nos ouvir.
Para quê tanto trabalho se, qualquer dia, vamos estar rodeados de impacientes que não querem acompanhar o nosso passo? E que vão praguejar pela nossa lentidão de reflexos, nos movimentos e nas palavras?
E então, vai haver o 1º dia em que vamos desistir...a menos que encontremos um objectivo para nos continuarmos a levantar, a sair de casa e a andar. E, invariavelmente, o objectivo que nos vai fazer mexer vai ser, algures, a força dos afectos. O carinho de alguém no café, na rua, no jardim, na igreja, vai-nos orientar os passos, e vamos querer retribuir um sorriso, vamos procurar onde poderemos ser úteis. Vamos querer receber o olá carinhoso da pessoa que nos cumprimenta, nas nossas rotinas.

Os idosos podem ensinar coisas fundamentais da vida que teimamos tantas vezes em ignorar em casa, na profissão, na forma como lidamos com percalços.
Podem ser avós formidáveis e cumprir uma função social que não é substituível.
Ou então, podem ter a energia dos sábios nas empresas...a experiência de vida que tempera os riscos desnecessários e que, tantas vezes, fazem falta a quem toma decisões.
Podem desempenhar actividades sociais para o que, quem trabalha plenamente, não tem tempo.
Ou então, podem simplesmente sossegar pela presença, pelo sorriso, pelo tempo que dedicam aos pequenos carinhos que faltam aos "pré-idosos".

Se este país não é para velhos...se não há nenhum país de velhos para onde possamos emigrar quando as forças nos faltarem...então de nada serve viver mais e melhor.

É um tema independente da "crise". Muito bem, é fundamental cuidar das reformas com dignidade. É fundamental que haja instituições com cuidados de saúde para o que os nossos filhos e ou amigos não tenham competência. Mas sem carinho, sem o tempo de alguém...de nada servirá o apoio social.

Cuidemos dos idosos na nossa família...abandone-se a expressão "velho"...velho é quem é incapaz de sentir afectos, qualquer que seja a idade.

Num país para velhos, também deve haver crises...mas muito menos profundas.


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