(Começo por informar que - conforme já escrevi, algures - que tenho feito parte do eleitorado flutuante que, ora se reconhece numa minoria, ora admite a importância do "voto útil" em contextos críticos... porque "em tempo de guerra não se limpam armas").
Apesar da quase evidente falência do Estado...da necessidade de um resgate financeiro equivalente a cerca de metade do valor da produção do país...do ciclo vicioso de desemprego-quebra de natalidade-surto emigratório-quebra do consumo...do abrupto ajustamento ao menor poder de compra e ao "enorme" aumento de impostos...da difícil retoma económica em contexto de austeridade...dos nossos países de exportações em crise...da falência do enorme grupo Espírito Santo com uma armadilha de estilhaços ainda em contabilização crescente...da panóplia de greves absurdas com especial destaque para a vergonhosa greve de 10 dias da TAP...da constante mediatização de conflitos em quase todos os sectores...e tantos outros acontecimentos brutais que aconteceram nestes 4 anos, a coligação de governo voltou a ganhar. Um caso singular, único, por comparação a outros países em contextos equivalentes.
Mas eis que, afinal...os outros partidos sentem o obscuro poder de inviabilizar o governo. É absolutamente extraordinário mas infelizmente previsível...porque esta vitória deve-se, também, à ausência de contrapropostas credíveis.
Senhores dos partidos da oposição: leiam por favor os artigos internacionais de hoje que destacam a maturidade política do eleitorado português, num contexto tão difícil quanto o nosso. E respeitem essa vontade silenciosa da maioria...que se manifesta menos mediaticamente, mas com acção diária, com sacrifício, com exemplo, com "luta" para usar uma expressão que tanto usam em vão. Não esquecer a força do voluntariado social que tem vindo a ajudar as reais necessidades do aumento da pobreza...e em como essa força não é mediática, não se insubordina, não anarquiza, não viola o bom senso da tenacidade, não se ostenta nas aberturas dos noticiários.
Como é possível que leiam os resultados ao contrário...afinal, não deve governar o partido em quem os eleitores confiaram, mas sim a astúcia de acordos febris em torno do poder, como se a democracia fosse apenas e só um sistema de contagem de votos para esse efeito. Afinal, os partidos que mais se vangloriam da memória de "abril" - uma memória e património de todos os portugueses, em que me reconheço! - são capazes de desrespeitar a decisão do eleitorado, a bem dos seus interesses mesquinhos de contrariar o que a maioria votou...eles é que sabem do que o país precisa, e não o eleitorado. Afinal, o nossos sistema é uma oligarquia dos partidos menos votados...espantoso!
Em paralelo a este breve espanto político: confesso a minha admiração por Passos Coelho.
Aguentou...tudo e todos...as vozes dissidentes do seu partido...os contratempos do seu parceiro de coligação...os ataques pessoais...soube quebrar o que parecia ser um ciclo vicioso de dificuldades. Resistiu com tenacidade, não usou discursos inflamados e está longe da eloquência latina de manual de liderança, e até os nossos patéticos analistas políticos dizem que "perdeu" o 1º debate com o líder da oposição. Confessou-se um cidadão "imperfeito", não é ostensivo, não é provocador.
Afinal, foi a sua confiabilidade que venceu, contra todas as expectativas.
Um desafio à lei das probabilidades.
Se esta vitória já foi um milagre, é de uma grande desonestidade intelectual ler como derrota que o governo tenha perdido a maioria absoluta.
E se o 2º partido mais votado não tiver a mesma dignidade...se não souber dar os parabéns ao governo, se não autoavaliar os seus erros, se não souber dialogar e concluir pela necessidade de um verdadeiro PACTO DE REGIME...então teremos as bases do nosso sistema democrático seriamente comprometidas.
Vou acreditar que o PS cure as feridas - bem menores que as dos partidos da coligação no governo, desgastados e já com perdas pessoais esmagadoras - e se mobilize seriamente para soluções de compromisso. Não é tempo de capricho de egos. E o reconhecimento da força de quem ganha não é uma derrota, é um acto político de sentido de Estado. E, pelos vistos, o eleitorado português sabe reconhecer essa confiabilidade.
É tempo de testar a verdadeira maturidade do nosso sistema democrático: a negociação de compromissos entre adversários políticos, os consensos e as convergências fundamentais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário