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sábado, 20 de outubro de 2012

Carta ao Álvaro de Poortugal

(nota inicial: "Poortugal" não é inventado por mim, somos assim designados num recente artigo da revista "Economist" sobre Portugal)

Álvaro,

ACTO I.

Foi assim que te apresentaste ao país: "...tratem-me por Álvaro". Simplesmente.

Em contraciclo com muitos invejosos do título académico, que fizeram questão de o inventar para exigir tão digno tratamento...tu abdicaste dele, neste país de doutores e de cursos superiores inimagináveis.
Pareceu-me que te apresentaste como és, sem subterfúgios, e até te vi arregaçar mangas em vez de confirmar a justeza da gravata.
Inverteste o guião de teatro a que nos habituámos.
És ao contrário do que é normal, na tua função.

Desconcertante.


ACTO II.

Julgo que saibas que assim mostraste a tua fragilidade aos políticos profissionais.

Vezes sem conta, a comunicação social já te remodelou.

Pois bem, o que se passa, é que tens o ministério mais atacável, porque é onde todos nós canalizamos mais esperanças. Ansiamos por crescimento económico, doridos de tanta austeridade que nos faz perder a memória dos anos em que confundimos importação com produção e em que sentimos a ilusão do enriquecimento, envolvidos em betão. Sem moeda própria que nos permitisse ajustar a verdadeira competitividade, e com taxas de juro baixas, vivemos uma ilusão colectiva, com uma governação em crescendo de irresponsabilidade até ao último mandato de festa permanente.

Gerir elevadíssimas expectativas...exige o apelo a todas as competências.
Tens a missão mais ingrata de todas, e não tens por enquanto, qualquer espaço de manobra para executares o que quer que seja.

Austeridade e crescimento são incompatíveis, e tu sabes disso.
Também sabes que o crescimento da economia só inicia o seu longuíssimo percurso depois do severo caminho da austeridade, e que esse caminho é o único possivel quando um país perde a necessária credibilidade para assegurar financiamento.

A oposição partidária não tem soluções, refugia-se na facilidade do insulto.
E então, resta-nos (aos que teimam em acreditar na retoma do nosso querido país) acreditar que a oposição de que precisamos, exista no seio do governo e que faças parte dela. E, com dignidade, a oposição responsável deverá ser anónima, a bem da estabilidade política que nos salva de nova subida do prémio de risco português.

Não deixes de te opôr, no meio dos teus colegas de governo e...que isso fique só entre nós.


ACTO III.

Curiosamente, deste-me um sinal em como estamos no momento de viragem para a ainda longa caminhada da possibilidade de medidas económicas, sabes porquê? Porque foste, há dias, um extraordinário motor contra a oposição, num discurso inflamado na Assembleia da Republica, conseguindo enervar por completo a estupidez insultuosa de quem teimou em designar-te de "remodelável".
Borrifaste nisso e mostraste confiança.


Mesmo que deixes de ser Ministro - por te faltar a competência oratória e a experiência negocial - espero que exerças qualquer outra função muito perto do famigerado Ministério da Economia e que, mais anonimamente, faças o teu trabalho.

É de muita gente anónima que se reconstrói o que gente sem escrúpulos destruíu.

Quem trabalha com ideais não faz questão em receber medalhas.

Continua a trabalhar e não emigres.
É com pessoas contraciclo que se fazem as mudanças, mesmo que não constem dos livros de História.

Se me permites, um abraço,
Paula Mendes


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