Ora aí está: o "PCS"...o melhor do capitalismo e do socialismo. Isoladamente, julgo que ambas as ideologias falharam. Mas o melhor de ambas é um caminho possível, um compromisso social e económico em que me reconheceria.
(preciosa utopia que me alivia as "dores"? mas, afinal, não é o pensamento que distingue a raça humana? Então...pensemos.)
Começando pelo meu princípio de reflexão: a minha geração de estudante teve a sorte de se empregar com imensa facilidade, em pleno auge de economistas e gestores, na década da entrada na CEE. Os fundos comunitários pareciam inesgotáveis. Vivia-se o pulsar do consumo e o crescimento galopante de ordenados.
Nessa altura, entendi como desejável e positivo que se promovesse a livre intervenção dos agentes económicos. Parecia assistir ao milagre da prosperidade tal como o pensamento económico de Adam Smith com a sua "mão invisível". O funcionamento de mercados sem constrangimentos, a expansão de empresas sem barreiras, o recurso a privatizações sem preconceitos. Uau...como tudo isto coincidia com obra pública infindável, parecia evidente que as áreas de Educação e Saúde estariam em pleno desenvolvimento na directa medida em que havia um mercado mais livre, pressuposto fundamental do dito "capitalismo". Assumi que as funções sociais do Estado conviviam com capitalismo e democracia, sem conflitos.
Esta simultaneidade gerou uma profunda ilusão. Prosperidade e capitalismo pareciam ser consequência um do outro. E a crise de 1929 teria sido um episódio particular dos EUA...não replicável no espaço europeu, supostamente uma cultura de valores humanos, talvez menos empreendedores, mas mais conscientes da dignidade humana e da necessidade do Estado Social.
Hoje, é-me evidente que assistimos antes, à feliz coincidência entre subsídios para obra pública e democracia com maior apetência ao modelo capitalista.
Essa prosperidade não foi produção, foi consumo, importação, maior poder de compra, mais e mais imobiliário. Quem aproveitou em conhecimento científico (veja-se os prémios dos nossos cientistas num IST ou numa Universidade do Minho!) terá sido foi uma percentagem residual da nossa população. E quem sonhou com agricultura ou pescas, terá mudado de ideias.
Afinal...agora corremos o risco de cair no extremo oposto, com um Estado austero porque com uma dívida insustentável e por isso em plena desintervenção em infraestruturas fundamentais...alguns riscos:
- desistência da maternidade; mães cada vez mais constrangidas na vida profissional e quase complexadas por terem que dedicar tempo aos filhos a bem da melhor educação e investimento no seu equilíbrio pessoal;
- os pais com percalços de emprego, com dificuldade acrescida em assegurar a educação superior dos filhos;
- uma sociedade mais inculta, logo mais manipulável, mais adaptada a esta anestesia dos media que nos encharca de concursos e telenovelas imbecis;
- os percalços de saúde mais destratados; por entre despedimentos inexplicáveis numa lei laboral dita livre, moderna e capitalista, até aos cuidados de saúde pública cada vez mais inacessíveis.
Logo, ainda menos natalidade e muito maior mortalidade...corremos o risco de descurar os extremos demográficos de que é feita a verdadeira qualidade social, numa vertigem de descuido quer com os futuros, quer com os antigos adultos.
Quase me ocorrem os Homens de Neanderthal, essa primeiríssima evolução da espécie. Não mais que o domínio dos mais fortes.
A falência do Lehman Brothers desmoronou o mito da infalibilidade do sistema financeiro. Descarnou violentamente a verdadeira dimensão das dívidas dos agentes nas economias, empresas, pessoas e Estados. Quase implicou o fim do Euro.
Esta espiral em que temos vivido desde então veio também evidenciar a origem daquilo que consumimos. E...afinal...o "made in Portugal" tem quase tudo por fazer.
Afinal, como queremos inverter a nossa infeliz tendência demográfica?
Afinal, como queremos combater a emigração dos mais capazes para a vida profissional?
Afinal, queremos ou não continuar a poder educar (quase) gratuitamente as nossas crianças e a saber cuidar (quase) gratuitamente de quem já trabalhou uma vida inteira? Com que sacrifícios?
Capitalismo...socialismo..são ideologias ultrapassadas. Temos suficiente experiência para entender que há que tirar partido do melhor de ambas porque não queremos de novo, nem uma falsa prosperidade, nem um Estado sufocante que a todos empregue sem a necessária virtude da mudança e não promova a iniciativa privada.
É preciso alguma loucura e muitíssima coragem para conseguir este compromisso. Não é infelizmente com os núcleos duros dos maiores partidos da oposição, demasiado apodrecidos nos seus poderes instalados, nas suas seitas de interesses.
A génese do PCS é o que...sinto...vai na Alma da maioria silenciosa que, com paciência mas sem resignação, segura este país e lhe dá credibilidade.
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