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domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Hannah Arendt" - obrigatório ver e conhecer

Vi hoje este filme e fiquei absolutamente...K.O.
Em comoção profunda de pensamento. Num estado de abstracção que só acontece quando despertamos por completo das rotinas.

Aqui ficam alguns apontamentos que me arrepiaram, e aqui vão com a genuinidade das emoções imediatas no momento de pós-filme. Decerto que amanhã faria com outro pormenor...mas valem os primeiros momentos pelo seu valor emocional que, afinal de contas, é o que ficará firmemente mais gravado.

Um primeiro destaque para a genuína independência de pensamento. Hannah Arendt, judia alemã, fez a cobertura do julgamento de um nazi sem transmitir qualquer laço judeu ou alemão. Foi apátrida. Não interessa se o fez por ter sofrido em ambas as condições ao ponto de não se comover com qualquer uma das pátrias; quase diria que isso é um problema menor. A motivação não é o fundamental. O que é essencial destacar é a profundeza de análise num julgamento, pela atenção ao conteúdo das respostas do julgado, e à observação da forma como o fez. Para concluir pela "banalidade do mal", no sentido em que foi o"não pensamento" daquele homem que o fez ser, apenas e só, mais um fiel funcionário de regras. Um incapaz de contradizer a maioria, mais um burocrata ao serviço da ideologia dominante.

Com esta análise, Hannah Arendt pareceu proteger os alemães, apenas e só por não atacar o nazi julgado pelo horror das consequências dos seus actos (conduzir judeus para comboios a caminho de campos de concentração) ou simplesmente por não aproveitar o contexto para defender a honra dos judeus.
Mais...a sua análise estendeu a teia de crueldade aos não alemães que cooperaram com o regime, e aqui, leia-se os silêncios, a incapacidade de contra-organização ao regime, a cobardia, a propagação do medo. Fê-lo, ela própria, sem complexos, sem medos, sem cobardia, em oposição à "banalidade" da opinião comum.

Actuou como pensadora, escritora, o que quisessem apelidá-la, por encomenda de um jornal americano que dela esperaria, obviamente, um trabalho jornalístico de excelência e supostamente sanguinário contra o regime nazi.
Fez o seu trabalho sem qualquer compromisso, independentemente do gosto dos media ou dos próprios amigos.

Tudo isto comoveu-me profundamente.

Reagir com silêncio perante a corrupção é, afinal, contribuir para o seu engrandecimento.
Encolher os ombros em vez de fazer o que está ao nosso alcance é, afinal, cumprir ordens superiores ou imitar a maioria...em analogia ao caso deste filme, é levar alguém para um comboio de destino incerto...

A acomodação (a escolha do "não pensamento"), amplia a génese do mal. Eu sei que é aterrador reconhecê-lo, mas é ... verdade.

Filosofia não devia ser coisa do passado e acredito que há-de brevemente ressurgir, na total ausência de pensamento genuinamente independente, em que vivemos.






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