O reverso do sonho, é o abismo...e por isso, tem que se negociar até à exaustão e...no limite...voltar a negociar. A bem do delicado xadrez político que confere paz à Europa.
Em jeito de início, alguns factos comparativos entre Portugal e Grécia:
. um regime democrático com a mesma idade;
. um PIB per capita equivalente, com população marginalmente inferior (10,5 milhões compara com 11 milhões na Grécia) e com um PIB inferior em cerca de 12% ao grego;
. um salário mínimo nacional inferior em 256€;
. menor dívida das Administrações Públicas em % do PIB: 125%, versus 157% na Grécia. 83,5% na UE 28.
Os números são autoexplicativos.
Não posso esquecer que:
I. Durante o período de intervenção pela troika, a Grécia beneficiou de um perdão de dívida obrigacionista superior à ajuda pela troika a Portugal...tratou-se da reestruturação em 2012 de emissão obrigacionista de cerca de 177mM €, com acordo dos credores privados quanto à troca por títulos de menor valor; significou na prática perdoar mais de 70% do valor nominal.
II. A Grécia faz fronteira com Turquia...Bulgária...Macedónia...Albânia.
O que também é autoexplicativo quanto à relevância geo-política para o espaço europeu.
E agora?
Temos Tsipras...fonética de nome de herói da mitologia grega.
Naturalmente, recolheu a simpatia dos países mais severamente castigados com políticas de austeridade.
Viveu o estado de graça de benefício da dúvida pelas forças políticas mais convencionais na generalidade dos países europeus, para além do eco natural nos partidos de esquerda, aparentemente feitos da mesma matéria-prima ideológica com que nasceu.
E eu...reservei expectativas positivas quanto ao possível aumento da força negocial do único poder que tem verdadeiramente enfrentado o desafio ao crescimento económico na Europa, em contraponto à rigidez alemã: BCE, pela mão de Mario Draghi.
Contudo, a recente sucessão de acontecimentos desde que Tsipras ganhou as eleições, resfriou o meu optimismo:
i) Quebrou com os protocolos, colocando acima do previsível entendimento da maioria que nele votou - dantes em partidos ideologicamente muito distantes - os seus caprichos pessoais, sem respeito pelo que terá motivado milhões de pessoas a conceder-lhe o privilégio do poder, sem o bom senso próprio de um homem de Estado que não renegue as raízes culturais do país onde nasceu e que nele confiou...uma atitude de ditador, de homem de rupturas e sem margem para negociações;
ii) Aliou-se ao partido ideologicamente oposto, sem hesitações, como se fosse possível assumir compromissos futuros de governação apenas com um estado de alma comum inicial, e tudo o resto destituído do mínimo de convergência ideológica...esvaziando a história da "direita" e da "esquerda" para uma espécie de relíquias políticas...que até poderia ser positivo se o Syriza não se intitulasse de "extrema esquerda".
Assim...inaugura-se um regime político europeu em que a democracia é apenas um veículo de poder para programas irreais em contextos de desespero. Uma espécie de...totalitarismo.
iii) Arrogou-se a ser “o” percursor de mudanças na Europa, ainda sem nada provar quanto à possibilidade de compatibilizar incumprimento com crescimento económico e ignorando o facto de os países fustigados pela austeridade serem também credores da dívida grega.
Uma extraordinária sequência de presunções, apoiando-se numa esperteza constrangedora que advém da delicada posição geográfica da Grécia…e se o "Podemos" em Espanha teima em lhe seguir os passos numa lógica de contágio que alisa lamentavelmente as óbvias diferenças de realidade, não me espantaria se também a Extrema Direita em França fizesse o mesmo.
O recuo parece-me inevitável...sob pena de isolar o seu país de qualquer financiamento ou de o deixar à merçê de potências totalitárias e anti-europeias...sob pena de negar quase tudo aquilo que prometeu.
Em jeito de contraponto: temos o ministro das Finanças,Yanis Varoufakis, com uma história de vida interessante, com obra feita desafiante. Desconcertante, culto e de horizontes aparentemente mais latos que o "menino" Tsipras. Veremos...
Receio estarmos, ou à beira de um perigoso abismo em que a Grécia obtenha apoios extra-Europa para evitar o isolamento de uma bancarrota, ou então... que seja uma oportunidade para puxar pelo que a Europa tenha de melhor.
Do que não tenho dúvida é em como nós, europeus, partilhamos um "ADN" grego...não é só uma herança "filosófica" do passado, é uma peça fundamental para a paz na Europa.
Do que não tenho dúvida é em como nós, europeus, partilhamos um "ADN" grego...não é só uma herança "filosófica" do passado, é uma peça fundamental para a paz na Europa.
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