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sábado, 7 de fevereiro de 2015

Sobre a tese da "qualidade de tempo" com os filhos

Desde há alguns anos que ouço recorrentemente pais e mães defender com grande entusiasmo a importância da "qualidade de tempo" com os filhos, em contraponto à pouca quantidade de tempo que sentem ter.
Defendem esta receita milagrosa e tentam persuadir-se a si e aos outros, numa espécie de marketing de massas com o slogan "o tempo de que disponha para os seus filhos...use-o com qualidade!". E assim se resolve a culpa pela falta de tempo; assim nos protegemos das nossas lacunas, numa espécie de oráculo de que as gerações anteriores não se tenham lembrado.

Eu não sou certamente uma pessoa exemplar, tenho muitas dúvidas e estou em aperfeiçoamento constante do exercício da minha maternidade - com quebras -; portanto, não é por me arrogar a entendimentos superiores que venho descompôr esta receita dos nossos tempos, de que tanto me tentam convencer. É antes, um testemunho da minha experiência, das minhas tentativas, das minhas conquistas e dos meus fracassos.

Desmontando a tese...
I.
A espécie humana não evoluíu assim tanto que os jovens vivam a vida de 30 anos, aos 15. A informação permanente, o convite aos excessos como forma de protagonismo social e, claro, a falta de disponibilidade dos pais, obrigam os nossos filhos a viver numa aceleração de descobertas que, afinal de contas, a sua maturidade não acompanha. Têm as mesmas dúvidas e quebras que os pais tiveram na sua juventude; mas nós vivemos a juventude num mundo muito menos informado, menos vivo e menos social. O mundo actual é mais exigente para todos nós.

II.
Os filhos não param de crescer... ainda hoje, dou por mim a crescer quando sinto a serenidade dos meus pais diante de problemas complexos.

III.
Quando tenho plena disponibilidade de tempo como mãe, partilho a indolência do tempo ocupado com os silêncios próprios de cada um, no aconchego das nossas presenças; e então, o tempo desformata-se por forma a que ninguém tenha que falar comigo a hora certa, só porque é a hora em que eu estou em casa.

Com mais tempo, distendem-se os ritmos e perde-se a rotina de horários que limita e quase que complexa o momento dos segredos, das intimidades e das dúvidas. E então, dou por mim a pensar que, se teimar em ter pouco tempo, vou tentar corrigir com excesso de perguntas, de palavras demasiado dirigidas, a bem daquilo a que se pretende designar de "qualidade". Mas as palavras não são o amuleto adequado, pelo contrário: desperdiçam-se de forma desconexa, abusiva, ganhando vida própria para além do que é essencial. Diria que, em vez de palavras, é preciso simplesmente estar mais tempo, actuar com exemplo, deixar para lá da porta de casa o que nos magoou para reinventar um sorriso só pelo gosto de chegar a casa e de estar com os nossos filhos. E ter paciência, e ainda...na dúvida...ter paciência, num treino infinito de saber aguardar o momento certo para dizer as palavras adequadas.

Portanto...venha daí a quantidade de tempo com os nossos filhos.




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