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sexta-feira, 3 de julho de 2015

O dispensável referendo grego de 5 de julho


"Aquele que se empenha em resolver as dificuldades, resolve-as antes que elas surjam."
Sun Tzu

Não havia necessidade de pedir este referendo ao povo grego. O governo demitiu-se das suas responsabilidades, ao devolver a quem tão recentemente o legitimou, uma decisão para um acordo que foi incapaz de negociar. Traído pela sua incompetência, inabilidade e insanidade, refugia-se agora em quem nele confiou. Ou então, este descalabro negocial terá sido estratégico para demonstrar a impossibilidade de negociar com a Europa, servindo os loucos desígnios de "soberania" a troco da falência e do desrespeito pelos sacrifícios dos países ex-resgatados e de dimensão semelhante.

Que decisão de bom senso se espera de um povo desesperado, à beira do colapso? Quer o "sim" quer o "não" serão decisões desesperadas, insensatas e absurdas, não vão ajudar a esclarecer as partes negociais. O governo de Tsipras autodescredibilizou-se. O tempo só corre a favor de quem pretende efectivamente chegar a acordo.

Sr.Tsipras: governe, ou então, demita-se. Assuma-se.
Na realidade, diria que quase todos nós partilhamos os seus ideais de autonomia.
Mas a autonomia conquista-se, não se financia.

É evidente que, se este governo grego pretendesse manter o país no Euro, já teria avançado com um programa de reformas minimamente credível. Vão argumentar: "a dívida é insustentável"...não é argumento, também a nossa parece ser, mas o comportamento negocial permitiu reduzir os custos de financiamento externo. E é este facto que permite recuperar o "ciclo virtuoso" da confiança e, por conseguinte, do crescimento.
É evidente que caíram na armadilha que eles próprios construíram, por entre o permanente dilema entre a opinião pública pró-Euro e as fracturas eminentes na sua coligação. O governo grego é uma "colagem de peças" demasiado fracturantes e distantes politicamente...sem consensos visíveis para momentos delicados. Esperariam facilidades sem contrapartidas, com a permanente chantagem do seu peso político que advém das suas fronteiras com o espaço "não-Euro". Não obstante o reduzido peso económico na Europa...inacreditável, mas é o que parece evidente.

Em desespero, de nada valerá a conclusão do referendo.
Se ganhar um "sim", teremos uma forte probabilidade de o governo se demitir a poucos meses de ter sido eleito, pelo que recuaremos a uma obscura inexistência de consensos e a um perigoso ambiente de guerra civil; ou então, Tsipras teria a coragem de se manter, cercado pelos seus adversários de coligação e perseguido pela sua própria sombra, do seu sósia enfeitiçado pelo milagre do crescimento sem reformas.

Se ganhar o "não", aumenta a probabilidade de desagregação da Grécia do Euro; "desagregação" e não de "saída", que da "saída" ninguém sabe falar, tal é a complexidade dos impactos internos - brutal perda de valor da moeda e de aumento da dívida - e externos - nova crise de riscos soberanos.

Por isso, quer o "sim" quer o "não" seriam dispensáveis para esclarecer ambas as partes e podem potenciar riscos maiores que não estão a ser devidamente acautelados.

Acredito em como o xadrez político europeu considera como primeiríssimo cenário, manter a Grécia; e a reestruturação de dívida pudesse vir a ser corolário de um sério plano de reformas que a Grécia se propusesse implementar; e esse facto viesse depois a ser extensível aos países agora designados de "periféricos" e ex-resgatados, numa cadeia de negociações que permitiriam um novo ciclo europeu, em termos económicos e acordos políticos.

...
Enquanto isso, desconhecemos a dimensão do combate ao Estado Islâmico. Porventura, um combate silencioso, e por isso sem que consigamos avaliar a real eficácia. Resta-nos os patéticos media a enfatizar os residuais terroristas instruídos e ocidentais, como se de um exército instruído se tratasse.
Enquanto isso, aumenta o drama dos refugiados no Mediterrâneo.
Enquanto isso, em vários países africanos, as crianças têm como destino serem soldados e as mulheres têm como destino a violação e a vida sem valor.
Um holocausto brutal, de novo aos nossos pés.
Tudo se relaciona perigosamente, num "fio da navalha" que merece políticos de elevadíssima estatura.
...

O pós-referendo grego é totalmente imprevisível.
Certo é também, que é nos momentos dramáticos que surgem grandes soluções, que podem passar por grandes recuos.

Termino com a citação de Sun Tzu com que inicio...é que, quem pretende um acordo, não inicia uma guerra.


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