(Nelson Mandela)
Uma descrição do "d'antes"
Sou da geração em Portugal pós-25 de abril. Olho para trás e reconheço ter vivido um momento único da nossa História do séc.XX; vivemos pelo menos duas décadas de quase pleno emprego, de subsídios para o crescimento, a possibilidade de saúde e educação gratuitos...uma vertigem de felicidade.
Hoje, e mesmo com a noção de ter trabalhado imenso, não tive a noção do justo retorno; é preciso passar por contextos muito adversos para afinar essa noção de justiça.
Felicidade...esbarro neste conceito...felicidade e sucesso ?! O que é isso, afinal?
As respostas são imensas...julguei-as mais óbvias na "belle époque"...agora, menos óbvias, mas mais sólidas.
Coisas "d'agora"
A família desconfigurou-se no sentido em que a conhecemos; a modificação é difícil de qualificar. Temos simplesmente que aceitar as mudanças.
O trabalho...pois se todos temos a informação que queremos à velocidade de um touch...mas se ainda assim, mantemos na maioria dos casos uma rotina de escritório e de espaços físicos ... com excepção da indústria, não tenho dúvidas em como as empresas rentáveis têm um conceito de espaço/resultados completamente diferente daquele em se teima em trabalhar.
Ouço demasiadas queixas e nostalgias, consomem-me o bem-estar; seguramente não se queixa quem se adapta e entende que os cursos feitos há décadas ensinaram sobretudo a agilizar conhecimentos e quem se soube desformatar da profissão X ou Y...há que dar o salto individual de criar ruptura com o "mundozinho" em que julgámos permanecer até ao milagre da reforma.
Notas soltas
As pessoas que mais me marcaram até hoje não foram as publicamente mais brilhantes que conheci pessoalmente; com isto, não lhes tiro mérito, mas o que é certo é que as competências públicas não equivalem necessariamente a virtudes privadas. Para além dos afectos - que obviamente me marcaram mais vivamente - as pessoas mais vibrantes e que não esqueço são as que deram tempo aos outros, convivendo bem com a eventual falta de gratidão. Move-as outro alcance da realidade, uma noção íntima e grandiosa de sucesso. Admiro-as intensamente. E quanto mais vivo, mais me vêm à memória.
Vivemos claramente acima da média mundial. Não interessa se é abaixo de poucos a nível mundial; esse pensamento é um recuo na nossa consciência, apequena-nos, limita-nos os horizontes e o espaço do nosso bem-estar. Não me peçam estatísticas... encontram com demasiada facilidade na internet...confessem a preguiça da pesquisa...é que a resposta é óbvia e contraria o nosso conforto.
A acção social - benefício fiscal
Habitualmente, é necessário que ocorra um conjunto de circunstâncias para que uma pessoa se disponha a fazer voluntariado; mas é certo em como o suposto sacrifício anula-se com os ganhos:
- Aumenta a auto-estima ao desvalorizar tudo o que parece pesar como problema, entende-se melhor a estreita fronteira para a fragilidade física ou emocional, aumenta a sensibilidade social e a noção da realidade;
- Aumenta o bem-estar no trabalho;
- Gere-se melhor o tempo e reganha-se disponibilidade para quem mais se estima;
- Os impactos nos outros - crianças, idosos, pessoas frágeis emocionalmente ou com dificuldades económicas - podem ser vistos como poupança de encargos para o Estado: ajuda à reinserção no mercado de trabalho, diminui o recurso a hospitais, melhora o aproveitamento escolar, contribui para corrigir os efeitos da pobreza, da exclusão social, da delinquência. Um milagroso esquema de compensações que permite a readaptação a contextos mais adversos.
Quanto às empresas: a minha opinião é certamente muito discutível, mas entendo que não têm que ter benefício fiscal directo com o facto de permitirem acção social aos colaboradores sem penalização; pelo contrário, devem antes propôr e repercutir esse facto na reputação e na sua imagem de mercado. Já existem benefícios associados aos donativos para fins sociais e ... o tempo dedicado à acção social é muito mais que um "enter" de uma transferência de dinheiro destinada a uma instituição social.
(vão-me contrapôr...deixem-me adivinhar:
- "...mas o Estado não deve ser o responsável por cuidar dos problemas de exclusão social que derivam do desemprego? "
Pois...mas é cada vez mais insuficiente por motivos que todos conhecemos e a que não devemos ser completamente alheios, sob pena de não merecermos viver acima da média mundial;
- "...mas eu é que vou contribuir para desempenhar uma função que é do Estado?"
Pois, mas todos fazemos parte do Estado; e se pago impostos, tenho direito a benefício se contribuir activamente para diminuir os efeitos da pobreza;
- "...mas se existe sobre-taxa de IRS, como é que há orçamento para benefício fiscal pela acção social?
Ou governantes ou a nossa oposição devem-se ocupar de fazer contas à poupança do Estado e fazerem as suas propostas. Mas consomem-se em discursos patéticos de ataques pessoais, política baixinha e vergonhosa.)
Epílogo
Felicidade? Um conceito demasiado abstracto, não sei o que é.Sucesso? Sobre isso, tenho uma noção mais clara: sentir verdadeiramente que faço o que está ao meu alcance.
Falta-me, sinceramente, não ter medo de morrer. E, quando deixar de ter esse medo, vou se calhar entender o verdadeiro alcance da felicidade.
E assim termino como comecei, com a citação de Nelson Mandela:
"É muito fácil enfraquecer e destruir. Os heróis são os que pacificam e constroem"
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