Hoje, tive dificuldade em explicar a uma pessoa que não vive em Portugal, o que está a acontecer no nosso país. Não estranhou o facto de não haver maioria absoluta; as democracias maduras são feitas de entendimentos partidários, a bem de uma governação negociada e que evite os abusos possíveis de poder.
O que tive que explicar:
- o partido mais votado não tem que formar governo;
- o líder do 2º partido mais votado não reconhece essa derrota, nem pessoal, nem do partido, e acha-se com legitimidade democrática em vir a ser 1º Ministro...uma perversão digna dos mais loucos desígnios;
- mais, há quem se preste em esclarecer - com ar entendido e erudito - que isto pode ser constitucional pelo facto de se tratar de uma situação omissa, como senão fosse antes uma omissão por se tratar de uma situação anti-democrática. Extraordinário e ainda mais perverso raciocínio... As omissões são afinal perigosas por criarem espaços vazios para aproveitamento de fanáticos pelo poder.
Mas ainda, em crescente absurdo: o partido mais radical de esquerda - o Bloco de Esquerda -, que tanto infernizou a governação com a necessidade de renegociar a dívida soberana, afinal até disso abdica a bem da sua colaboração no Governo! Fabuloso...tamanha desonestidade intelectual não esperava de um partido que respeitava pela coerência. Os famosos que apregoam "o povo é quem mais ordena" esquecem-se das conquistas de Abril. A democracia foi conquistada para se submeter ao obscuro poder de quem não é maioritário.
O sr. Costa leu a vaidade dos 3º e 4ºs partidos e os previsíveis sacrifícios a bem da constituição de um Governo que derrube a força do que foi mais votado; acham-se com legitimidade para fazê-lo, qual "ditatura do proletariado" contra a "ditadura da burguesia"...permitam-me concluir: é mau demais para ser verdade e o próprio Marx abanaria a cabeça com tamanha perversão.
Portanto:
- os eleitores que votaram no partido vencedor são todos doidos e desprovidos da sabedoria dos que votaram nos outros partidos;
- os votos não são iguais, 1 voto no Partido Socialista vale mais que 1 voto no Partido da Coligação, são afinal eleitores mais qualificados, os outros que tenham paciência;
- os eleitores do PCP e do BE nem tinham que se ter incomodado em ir todos às urnas...visto que o 2º partido mais votado iria sempre recorrer a entendimentos com os 3º e 4ºs para ser 1º Ministro.
Vão agora os entendidos em análise política dizer que é bluff do sr. Costa, para forçar a Coligação a maiores cedências...não lhes passa pela cabeça que o sr. Costa gere mesmo a situação como um jogo de poker. Mesmo que venha a desviar-se afinal dos seus acordos de esquerda e virar-se para um pacto de regime, parece-me agora legítimo que o partido da Coligação entenda não haver condições mínimas de confiança para formar governo e forçar a única forma de assegurar estabilidade: maioria absoluta. É pena...porque as maiorias absolutas não são desejáveis.
E Passos Coelho, que tem desafiado as probabilidades, tem ainda que aceitar este exercício pela frente? não vejo porquê...se o 2º partido mais votado se acha com legitimidade para ser líder de governação, não vejo qual a legitimidade em levá-lo a sério para um pacto de regime. A menos que o líder mude, claro.
Sr. Costa: tem sorte com esta maioria de eleitores que não se vai manifestar, vai assistir silenciosamente ao seu circo de vaidades, conviver com nova subida de taxas de juro com penosas consequências para o nosso endividamento externo e demais impactos com que já convivemos.
(E não venha retorquir com o facto de não ser uma situação pioneira na Europa! Não nos vamos comparar com países com partidos europeístas e sem divergências fracturantes sobre compromissos externos...pare de usar retórica inútil!)
Tanto que gostaria de assistir a uma oposição responsável. É tão necessário que haja contrapesos, soluções diferenciadoras e uma permanente pressão para evitar os abusos das maiorias absolutas.
O tempo dirá; mas diria que António Costa está a traçar o seu próprio abismo. O feitiço vira-se contra o feiticeiro.
O Partido Socialista não merece este líder.
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