"Ridicule" é o título de um filme francês de 1996, que me marcou e de que me tenho lembrado ultimamente.
Passa-se no contexto da decadente Versalhes, em pleno "Antigo Regime" no final do séc.XVIII. Sobre um aristocrata falido que sonha em conseguir financiamento para a irrigação das suas herdades para que volte a ser possível produzir. Para o obter, terá que conseguir uma audiência com o Rei. Percebe que o único caminho é obter protagonismo na corte, contando anedotas com "o" espírito que encante as amantes do Rei. Presta-se então a esse "ridículo", com sucesso. Mas após conseguir a ambicionada conversa de escassos minutos com o pateta do Rei, sente-se estupidificado. Sente que se desintegrou, que se despersonalizou, que abandonou o seu amor-próprio. Desenvolve competências que não julgava ter, e não sabe se gostaria de ter desenvolvido. Sente-se confuso e tem dúvidas sobre se os fins terão justificado os meios.
Daria também um bom enredo de Kafka, no início do séc.XX. Mesmo num contexto político e social completamente diferente, mas...europeu.
Daria também um excelente enredo actual. Vejamos...
Os líderes europeus multiplicam-se em fotos sorridentes, sempre impecáveis e iludidos em serem donos dos destinos do mundo. Enquanto isso, trabalha-se estupidamente na Ásia, por entre crianças e idosos, sem leis de trabalho que vigiem a decência do trabalho e sem leis de mercado que os impeçam de vender de qualquer maneira o que foi produzido sem ética de trabalho.
Deliciamo-nos com o quotidiano das famílias reais, as princesas competem em medidas, vestidos e sorrisos, como se a beleza fosse o principal talento feminino. Monarquias sem decisão política, mas com o simbolismo do absolutismo real que manteve faustos e alimenta o imaginário social. Desperdícios ridículos por entre regimes democráticos que albergam sem-abrigos em ascensão.
A Europa engordou, envaideceu-se, autoalimenta-se do mito épico do auge da civilização.
Ridícula.
Apesar de tudo isto, não renego nem o meu país nem sermos europeus. Porque reconheço que somos educados num contexto de valores humanos que, ainda assim, é positivo. Conquistado depois de muitos séculos de lutas. A democracia é um regime que nasceu da guerra. Os direitos humanos nasceram das cinzas dos abusos de poder.
Mas esta noção do nosso ridículo é fundamental para alterar mentalidades. Voltar à terra, ao mar, entender que as grandes empresas já não vingam, num contexto em que a incerteza e a velocidade dos mercados implica estruturas mais leves e adaptáveis.
Que os Estados europeus entendam que a austeridade já não é mais o ganho da seriedade sobre a corrupção que duplicou as despesas dos Estados em escassos anos, mas antes uma armadilha diabólica que nos pode aniquilar. Entender que é preciso criar de novo condições para produzir nos nossos países, dar espaço para não deixar que o serviço de dívida do Estado asfixie a remusculação das economias.
Esta situação está devidamente estudada; há diversos artigos de ilustres economistas, provando que os efeitos das múltiplas políticas de austeridade em países que têm fortes fluxos comerciais entre si implicam revisão de crescimento em baixa, num efeito multiplicador recessivo. E mesmo que esta percepção seja real para os senhores políticos que tiram fotos sorridentes, prorrogam o momento em que vão reolhar para a economia real em função do xadrez político, em função das próximas eleições, em função de outras variáveis que não a situação do país que governam.
E não sei se se perguntam se os fins irão justificar os meios...infelizmente porque a noção de "fins" se mistura com os "meios", numa confusão de valores que é melhor resolver com um sorriso para a câmara e com adiamento para próximas sessões.
Já não são só os economistas que têm a chave para os nossos problemas...tem que se governar com mistura, e até predomínio, de outras competências.
"Ridicule" é um argumento perverso que não devia ser intemporal.
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